terça-feira, 16 de agosto de 2016

Elke Maravilha: uma baita história de vida


Texto extraído de Wikipédia (Creative Commons)

Elke Georgievna Grunnupp (Leningrado, 22 de fevereiro de 1945 - Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2016)
Creative Commons - CC BY 3.0
Wikimedia Commons
Filha de um russo e de uma alemã, Elke nasceu na antiga Leningrado, hoje São Petersburgo. Seus pais resolveram imigrar para o Brasil, um país visto como promissor e bom acolhedor de estrangeiros, onde havia muitas colônias de imigrantes. O casal junto com seus três filhos, instalaram-se em Itabira, no interior de Minas Gerais, em um sítio, onde Elke e seus dois irmãos, passaram toda a sua infância, convivendo com todo tipo de animais rurais, realmente vivendo como uma camponesa. O casal não quis se mudar para uma colônia pois queria viver realmente como brasileiros e aprender os hábitos do país, tanto que Elke se surpreendeu ao conhecer pessoas de diversas etnias e orientações sexuais, um misto de pessoas que não havia em seu país, na época.

Quando Elke se tornou adolescente, a família se mudou para um sítio em Jaguaraçu, outra cidade do interior mineiro, onde Elke continuou a conviver na vida rural, com trabalhos do campo. Lá nasceram seus dois outros irmãos. Muito inteligente, na adolescência já falava, segundo ela mesma afirma, nove idiomas: russo, o português, o alemão, o italiano, o espanhol, o francês, o inglês, o grego e latim. Alguns desses idiomas foram aprendidos em casa, por causa de sua raízes germânicas, e outros aprendeu em cursos, que seus pais pagaram com dificuldade.

Querendo sua independência, já possuindo um bom currículo por conta dos idiomas que falava, saiu de casa aos 20 anos para morar sozinha no Rio de Janeiro, onde pagava seu aluguel trabalhando como secretária bilíngue em escritório. Por sempre gostar de estudar, Elke fez faculdade de Letras, e se formou em professora, tradutora e intérprete de línguas estrangeiras. Para pagar seu aluguel e sua faculdade, Elke trabalhou como bancária, secretária trilíngue. Foi também a mais jovem professora de francês da Aliança Francesa e de inglês na União Cultural Brasil – Estados Unidos.

Morou em Porto Alegre entre 1966 e 1969, onde cursou cadeiras nas faculdades de Filosofia, Medicina e Letras da UFRGS. Em 1971 se casou pela primeira vez, com o escritor grego Alexandros Evremidis.

Elke foi presa no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em fins de 1971, depois de rasgar, aos gritos de "covardes, como ousam, vocês já o assassinaram!", cartazes com a fotografia de Stuart Angel Jones, filho de sua amiga Zuzu Angel, já então morto depois de torturas na Base Aérea do Galeão. Foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional, o que a deixou apátrida.[5][6] Só foi solta depois de seis dias após a intervenção de amigos da classe artística. Anos depois, requisitou a cidadania alemã, a única que possuía.

Sua vida pessoal sempre fora muito conturbada. Morou em diversos países e teve oito casamentos, com homens de diversas nacionalidades. Fez três abortos, fruto de seus três primeiros casamentos, pois jamais quis ser mãe, e sempre achou que com seu jeito rebelde de ser, jamais poderia educar uma criança de forma digna.

Contou em entrevistas que tomava pílula anticoncepcional, mas fora enganada por alguns desses maridos, que queriam ser pais, e em vez de tomar a pílula certa, Elke tomava a pílula de farinha. Após descobrir isto, começou a usar DIU. Elke também foi usuária de todos os tipos de drogas ilícitas, além de todos os tipos de bebida alcoólica, e dizia que não tinha preferência por nenhum tipo de homem, e sim, que tinha pressa de namorar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Michael Phelps e Usain Bolt: as duas lendas que passaram pelo Rio de Janeiro


Desde já se pode dizer que duas lendas marcaram época nos Jogos Olímpicos do Rio de
Janeiro em 2016. O nadador norte-americano Michael Phelps e o atleta jamaicano Usain Bolt. Dois monstros. O esporte é uma das  atividades humanas que transcendem a política.





Phelps nos fez (coisa rara) torcer aqui em casa por uma equipe dos Estados Unidos, justamente pelo time que ganhou o ouro no revezamento 4x100m medley na noite de sábado 13 de agosto. Nessa prova (que Phelps promete ser a última, mas pode não ser) ele chegou a 28 medalhas olímpicas: 23 ouros,três pratas e dois bronzes.

Usain Bolt chegou à terceira medalha de ouro nos 100 metros rasos na Olimpíada do Rio, com 9s81. A prova é considerada a "mais nobre" competição do atletismo.

Não é o propósito deste post fazer estatísticas, contar número de medalhas ou detalhar a carreira de cada um.




A intenção é só registrar no blog os nomes das duas lendas  que fizeram história na Rio-2016: Michael Phelps e Usain Bolt. Cada um no seu  estilo: Phelps, o maior medalhista da história, mais introspectivo; Bolt, o  tricampeão olímpico nos 100 metros rasos, uma figura extrovertida que cativa o povo por onde passa. Ambos extremamente carismáticos.

Daqui a 100 anos, Phelps e Bolt serão lembrados como os dois grandes que passaram pelo Rio de Janeiro em 2016. Como se fossem a reencarnação de figuras que estiveram nos Jogos iniciados na Grécia, no século VIII a.C.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Liminar libera "Fora Temer" nos Jogos do Rio


"Defiro o pedido de concessão da tutela de urgência para o fim de determinar aos réus que se abstenham, imediatamente, de reprimir manifestações pacíficas de cunho político nos locais oficiais, de retirar do recinto as pessoas que estejam se manifestando pacificamente nestes espaços, seja por cartazes, camisetas ou outro meio lícito permitido durante os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016.”

Clique para ampliar


Este é um trecho da liminar concedida pelo juiz federal substituto do Tribunal Regional Federal 2ª Região (TRF2) João Augusto Carneiro de Araújo. Ele acatou pedido feito pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a posição do Comitê Rio 2016 de reprimir manifestações pacíficas contra o governo interino em estádios e ginásios.

Pelo menos no momento, em relação a isso, o Estado de Direito está preservado e o "Fora  Temer", liberado.

A decisão é de primeira instância e pode cair no tribunal. Esperemos que não e a tão violentada Constituição prevaleça.

sábado, 30 de julho de 2016

Donald Trump se aproxima da Casa Branca


Reprodução/Youtube
O magnata Donald Trump, terror do pensamento progressista no mundo, um outsider, representante republicano descolado do establishment político, que ameaça construir um muro para separar os Estados Unidos do México, entre outras propostas consideradas absurdas, pode ganhar as eleições dos Estados Unidos em novembro, contra todos os prognósticos de até poucos meses atrás?

A poderosa máquina democrata comandada por Hillary Clinton, que envolve poderes de Wall Street, do aparato de guerra e dos setores de informação e tecnologia dos Estados Unidos, pode ser derrotada por um candidato considerado histriônico e fanfarrão, ou protofascista, pelos analistas políticos?

O cineasta Michael Moore não apenas acha que Trump pode ser o próximo presidente do país mais poderoso da Terra, como enumera cinco razões para respaldar sua opinião. Em primeiro lugar, ele diz que parcelas dos trabalhadores insatisfeitos com o desemprego podem enxergar em Trump, com seu discurso populista, uma saída para a crise de emprego que abala o país.

A segunda razão é que o magnata republicano pode representar uma reação à ameaça que os neoconservadores acreditam existir num partido (o Democrata) que já elegeu Barack Obama, um negro, duas vezes, e agora pode eleger uma mulher. “Vamos deixar que uma mulher nos governe por oito anos? Depois haverá gays e pessoas transgênero na Casa Branca”, pensariam os conservadores, segundo Michael Moore.

O terceiro e quarto motivos pelos quais o documentarista Moore acha que Trump chegará à Casa Branca se confundem. Podem ser resumidos pela rejeição a Hillary por parte eleitores democratas mais à esquerda (que só votariam na candidata como voto útil) e pela indisposição dos jovens que preferiam Bernie Sanders em relação a uma representante da “velha política”.

Por fim, haverá, segundo Moore, o voto de protesto de parcela considerável dos eleitores contra o sistema político norte-americano, cujas mazelas associam aos democratas e a Obama, o presidente que está há oito anos no poder.

Para Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, as projeções de Michael Moore fazem sentido. Mais do que isso: “É difícil prever, mas Trump, hoje, é favorito, mantidas as circunstâncias atuais, já que os Estados Unidos mudam muito e pode acontecer um fato novo.”

Segundo ele, como Hillary assumiu uma posição conservadora dentro do Partido Democrata para tentar ganhar votos do centro, os jovens que ajudam a compor o perfil de esquerda dos eleitores democratas estão arredios à candidata. A crise que atinge os Estados  Unidos, onde a pobreza vem crescendo, também deve prejudicá-la.

Hillary tem contra si um grande contingente do eleitorado à esquerda que a identifica com causas muito distantes do pensamento jovem e dos setores progressistas. “Ela é bastante conservadora. Por exemplo, é claramente pró-Israel, é belicista e apoia a guerra. O eleitorado democrata mais à esquerda não vota nela. Pode votar, mas como voto útil. Mesmo assim, vai pensar muito”, diz Reginaldo Nasser.

MARC NOZELL/FLICKR CC


Do lado dos conservadores que Hillary quer atrair, também há problemas. “Na cabeça deles, o terrorismo no mundo aumentou com Obama e os latino-americanos estão tomando seu emprego. Vão colocar tudo isso na conta de Obama. Hillary pode ser vítima tanto do descontentamento dos democratas de esquerda como do voto dos conservadores que temem que os democratas de esquerda comecem a mandar no governo”, diz Nasser.

Por fim, há quem considere absurdo que um “maluco” como Trump chegue à Casa Branca. Mas não seria a primeira vez que um “ator”, de fato ou simbolicamente, conseguiria tal proeza. “Ronald Reagan, um ator de fato, não ganhou duas vezes?”, lembra Nasser. O republicano Reagan, presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989, foi ator em Hollywood de 1937 a 1964.

Para o professor da PUC, a força da candidatura de Trump pode ter sido subestimada: "o que a gente não pode esquecer, e aí divirjo um pouco do Moore, é que ele denigre a imagem do Bush e a gente ri. Só que esses caras, Reagan, Bush ou Trump, têm uma equipe de primeira. O sociólogo Erving Goffman fazia uma analogia com o teatro: é preciso ver o palco e o que está atrás. No palco estão os idiotas. Mas os que estão atrás do palco (backstage, os bastidores) não são idiotas, são competentes e poderosos.”

Apesar de tudo, Michael Moore, com seu estilo irônico, previu que o republicano Mitt Romney venceria as eleições em 2012. Mas quem ganhou e acabou reeleito foi Barack Obama.

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*Escrevi este texto para ser publicado originalmente na RBA


Lula propôs apenas um acordo com o capital, mas foi traído


"Por que essa ofensiva diante de um projeto, de um governo que o tempo todo tentou conciliar, desde 2003 até agora, e jamais apostou na ruptura e no enfrentamento?" (André Singer, em debate na USP - 13/04/2016)





Lula ter ido à ONU denunciar abuso de poder e violação da Convenção Internacional de Direitos Políticos e Civis, na "condução da Operação Lava Jato pelo juiz Sérgio Moro e os procuradores da investigação", nas palavras da CartaCapital, foi um fato político relevante. Mais simbolicamente do que na prática, já que, como se sabe, a ONU é uma espécie de "rainha da Inglaterra".

A ONU nada faz de concreto, a partir de sua sede (não por acaso) em Nova York. A destruição e a tragédia da Síria, que era talvez o mais laico e com certeza o mais belo país árabe do Oriente Médio, são a prova definitiva de que a ONU não serve para nada.

Mas, ONU à parte, aqui no Brasil a ofensiva segue na mesma toada, como mostra a capa da Folha deste sábado. Decisões judiciais alimentam manchetes, que por sua vez dão o tom de "verdade" às decisões judiciais, que citam as reportagens em seus arrazoados, e assim sucessivamente. O objetivo é óbvio: seja como for, tirar Lula da disputa pela presidência da República em 2018. A priori, a estratégia talvez não seja prendê-lo, o que poderia ser um tiro no pé.

Mas, voltando à manchete da Folha que ilustra este post, paradoxalmente, a própria Folha de S. Paulo publicou um texto que foi muito reproduzido pelo pessoal de esquerda nas redes sociais. No artigo do dia 26, intitulado "Escracho", a repórter especial do jornal Eleonora de Lucena escreveu:

" O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.

"O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há."

O texto da articulista é um dos melhores sobre o golpe, porque não fica apenas no episódio em si, mas resume de maneira cirúrgica o percurso golpista da elite brasileira desde 1932. É um texto precioso (leia a íntegra aqui).

Fico a me perguntar (como diria Mino Carta, cá com meus botões): como pode, um jornal que poderia desempenhar papel importante na defesa dos direitos constitucionais, mais uma vez embarcar num golpe oligárquico e mesquinho?

A elite brasileira e, particularmente, a paulista, poderia apresentar uma proposta de governo a partir da qual pudesse debater com a esquerda. Mas o que eles querem na verdade é só a destruição e o entreguismo.

O velho Claudio Abramo já escrevia, na antiga página 2 da própria Folha, que a burguesia brasileira é burra a ponto de não entender que um povo desenvolvido, esclarecido e inserido no mercado de consumo seria muito bom para o crescimento de todos, inclusive e principalmente do capital.

A perseguição a Lula é absurda. Lula nem mesmo tentou rompimentos. Ele propôs justamente e apenas uma aliança com o capital. Mas nem isso eles entenderam. O objetivo de Lula era superar a miséria para que todos crescêssemos, como mostra André Singer no livro Os sentidos do lulismo, que não chegou a abranger o primeiro mandato de Dilma, já que foi publicado em 2012, mas obviamente escrito antes. 

O fato é que a aliança proposta por Lula não deu certo porque o capital (a indústria e o mercado financeiro) rompeu o acordo unilateralmente, traiu Lula e Dilma e deu o golpe. E mais nada. Como a reacionária UDN faria. Triste país, o nosso.


segunda-feira, 18 de julho de 2016

O encantador canto do bem-te-vi e a histeria do periquitinho verde


Fotos: Reprodução
O lindo bem-te-vi e o passarinho histérico

Um dos maiores poetas do ocidente e fundador da poesia moderna, o francês Charles Baudelaire introduziu uma questão interessante que pode ser discutida até hoje: a natureza não é apenas a vida, mas também a morte. Óbvio. O que é difícil de aceitar.

Mas digo isso para apenas perguntar: você gosta de passarinhos? Eu gosto, mas alguns me agradam e outros me irritam profundamente. O canto do bem-te vi nunca é incômodo; já a histérica maritaca, quando chega em bando e começa a berrar embaixo da sua janela, você pode desistir de tudo: do filme que você está vendo, da soneca que está tirando, de qualquer coisa. É um bichinho realmente chato.

O bem-te-vi encanta. Ele é tão bonito fisicamente como seu canto é encantador e agradável. Ele canta logo que o dia amanhece, e também no fim da tarde. Seu canto não provoca insônia. Como que se mistura aos sons da natureza e do mundo. Parece que está aí desde sempre.

Já a maritaca (que eu prefiro chamar de baitaca) é o oposto. É um bichinho extremamente irritante. Em bandos, esses passarinhos predominantemente verdes ocupam enormes espaços no pouco verde que há na cidade, e você tem a impressão de que eles são tantos que nada mais pode cantar ou se manifestar na natureza urbana - se é que se pode admitir esse termo paradoxal, natureza urbana.

Por quê? Porque (sejamos racionais) para esses bandos de passarinhos verdes histéricos faltam predadores. Simples assim. Não existem gatos suficientes para abater uma parte dessa espécie insuportavelmente chata. E então ela vai tomando conta de tudo, quase como uma praga urbana. Como pequeninas pombas verdes.

É incrível a diferença entre a natureza de uma espécie agradável (o bem-te-vi) e uma espécie irritante (a maritaca). É o que sinteticamente mostram os curtos vídeos abaixo.


O canto do bem-te-vi:




A histeria da baitaca:

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Hector Babenco (1946-2016), um diretor diferenciado


Reprodução/Wikipédia
São Paulo – O cineasta Hector Babenco morreu na noite de ontem (13), em São Paulo, de parada cardíaca, aos 70 anos. Ele era argentino (nascido em Mar del Plata) naturalizado brasileiro e radicado no Brasil há 50 anos.

O diretor tornou-se um dos principais diretores do cinema nacional. Dirigiu Pixote – a Lei do Mais Fraco (1982), O Beijo da Mulher Aranha (1985, indicado ao Oscar de Melhor Diretor), Carandiru (2003), Lúcio Flávio - O Passageiro da Agonia (1977), Ironweed (1987),  Brincando nos Campos do Senhor (1991) e Coração Iluminado (1998). O último longa de Babenco, Meu Amigo Hindu, foi lançado em 2015.

Eu não sou ufanista, do tipo que defende o cinema nacional por ser nacional, o que me parece uma miopia crítica. Pelo contrário, o cinema brasileiro muitas vezes me irrita, dadas a precariedade técnica de incontáveis filmes, a carga extremamente teatral das direções e interpretações, a exploração desmedida e ordinária do sexo, além do abuso de temas relacionados à violência.

Mas a competência de Babenco fazia dele um diretor diferenciado. Dois de seus principais filmes, Pixote e Lúcio Flávio, me marcaram justamente por tratar da violência com extrema lucidez. São cinema, e não teatro filmado. Abordam a violência sem exageros vulgares. Não vi Carandiru: na época (2003), como agora, estava cansado da estética da violência do cinema nacional e me parecia que Babeco tinha se rendido a um gênero de filme ("favela movie") que explorava a violência com objetivos comerciais então dominantes.

O cinema brasileiro perde um de seus expoentes.


domingo, 10 de julho de 2016

Grande título português foi não apenas bonito, mas sobretudo merecido



Reprodução
Lisboa, 10 de julho de 2016

O improvável título de Portugal no Stade de France, em Paris, mostra por que o futebol é um esporte inigualável. Foi um episódio comparável a grandes momentos do futebol, como a vitória do Uruguai na final de 1950 contra o Brasil no Maracanã.

Se já era difícil antes, tornou-se ainda mais improvável a partir dos 10 minutos do primeiro tempo, quando o francês Payet deu uma entrada criminosa no joelho de Cristiano Ronaldo na primeira bola que o craque português tentou dominar. O juiz não deu nem falta. O camisa 7 do time luso saiu de campo (claro, chorando) e foi então que o que era difícil tornou-se improvável.

Mas aí entra o imponderável que ronda o futebol e faz desse um esporte mágico como nenhum outro. Unido, o time português cresceu. Tornou-se compacto. Venceu a Eurocopa batendo os franceses em Paris. O time da França mostrou que tem muitos talentos, mas é um time desorganizado, que não achou forças para vencer a incrível defesa portuguesa comandada por Pepe.

Curiosamente, em certo momento o comentarista Lédio Carmona, do Sportv, comentou que tinha sido um erro do técnico português Fernando Santos tirar Renato Sanches e colocar Éder. Eu comentei (e há pelo menos uma testemunha disso aqui em casa): "o Lédio Carmona vai queimar a língua". Cerca de 5 minutos depois, Éder faz o golaço que dá o título aos ibéricos. Portugal 1 x 0 França. Espetacular.

O grande título da história da seleção de Portugal foi não apenas bonito, mas sobretudo merecido. Principalmente para o camisa 7 português, que saiu do jogo após a entrada de Payet, mas continuou a comandar o time do banco de reservas.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Por que torço para Portugal de Cristiano Ronaldo contra a França

Eurocopa


Reprodução/Youtube
Craque português cumprimenta craque de País de Gales

Não pude ver os jogos das semifinais da Eurocopa. Como a Itália (meu time na Europa, para horror de alguns amigos) foi eliminada pela Alemanha no domingo, nos pênaltis, e esta caiu hoje inapelavelmente batida por 2 a 0 pela anfitriã França, em Marselha, torcerei para os patrícios na final entre franceses e Portugal. Aliás, torceria mesmo se a final fosse Portugal x Alemanha.

Sim, o time português é limitado. Joga, muitas vezes, contra times poderosos, por “uma bola”. Joga feio. Costuma apostar nos pênaltis para se classificar, embora tenha batido País de Gales por 2 a 0 para ir à final.

Mas, mesmo assim, torço para os patrícios contra os franceses porque, primeiro, sempre torço contra a França; segundo, quase sempre torço para Portugal, talvez por algo atávico e cultural, afinal, quem não gosta de uma padaria de português e de uma bacalhoada da hora?; e, terceiro, sou fã do “arrogante”, “nojentinho” e “insuportável” Cristiano Ronaldo. Como joga bola, o gajo, para mim o melhor jogador do mundo, apesar de a mídia preferir Lionel Messi, tanto que o argentino-catalão foi eleito quatro vezes o melhor do mundo pelo FIFA Ballon d'Or nos últimos anos (2010, 2011, 2012 e 2015), enquanto o português ganhou apenas duas (2013 e 2014).

Mas, para mim, lances como esse, abaixo, o primeiro de Portugal contra País de Gales, mostram por que o português está, literalmente, num patamar superior. O que não acontece por acaso. Segundo se sabe, o jogador não confia apenas em seu enorme talento, mas treina como um “doente” e não se cansa de buscar a perfeição, segundo seu ex-companheiro de seleção portuguesa Deco.

CR7, como é chamado no atual mundo de siglas, nunca foi campeão com a seleção de seu país. Mas, ao contrário de Messi, que joga na atual vice-campeã mundial Argentina, uma das melhores seleções nacionais do mundo (onde também nunca ganhou nada), Ronaldo leva sua seleção praticamente sozinho. É o maior artilheiro da história de Portugal, com 61 gols (20 a mais que o mito Eusébio). Na Espanha, jogando no Real Madrid, detém o recorde de marcar pelo menos 30 gols em cinco temporadas seguidas, 17 gols pela Liga dos Campeões em 2014 (marca inédita até então), maior artilheiro da história da Liga dos Campeões (com 93 gols), eleito três vezes melhor jogador do mundo (2008, 2013 e 2014), entre outras marcas.

E tem ainda posições surpreendentes. Em 2013, ao receber a Bola de Ouro, emocionado, citou duas personalidades que considera importantes para si mesmo. “Queria também mencionar os nomes de Eusébio e Madiba (Nelson Mandela), pessoas muito importantes para mim. É um momento muito emocionante. Tudo o que eu posso dizer é obrigado”, declarou, entre lágrimas.


Com Nelson Mandela, em 2010

Em 2010, durante a Copa do Mundo da África do Sul, o craque português encontrou-se com Mandela em Joanesburgo, enquanto seus companheiros de seleção visitavam o zoológico da cidade.

Sobre o espetacular gol contra País de Gales abaixo, o tabloide Daily Mail calculou que o atleta subiu 76,2 centímetros do solo e, considerando que tem 1,85 m de altura, cabeceou a bola a 2,61 m, 17 centímetros acima da altura do travessão. Parou 7 décimos de segundo no ar e a bola saiu de sua cabeça a 71,3 km/h. É incrível.

Nada é por a caso. Por isso, não é por acaso que torço para Portugal de Cristiano Ronaldo contra a França, um país, aliás, que sempre foi racista, mas só ganhou sua primeira Copa do Mundo, em 1998, quando resolveu incorporar os negros a sua seleção. 

Mas a França é mais time, joga em casa e é franca favorita.

Vejam o gol:

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A derrota de Messi e a demagogia sentimentalista



Reprodução/Youtube


A perda da Copa América pela Argentina no último domingo, mas principalmente a derrota de Messi, o herói, deu margem a todo tipo de dramatizações. Algumas sinceras, outras demagogas e midiáticas; umas emocionadas, outras calculistas (em busca de audiência), outras ainda simplesmente tolas.

Faço este breve comentário com tranquilidade, pois estou muito longe de alimentar em mim mesmo a rivalidade globeleza e falsa entre Brasil e Argentina, que embala o canal de televisão patrocinador do golpe no Brasil.

Adoro o futebol argentino, que, para mim, junto com o outrora (e hoje degradado e horrível) futebol brasileiro e o italiano, sempre formaram a tríade do melhor futebol do mundo -- como tradição e escola, e não apenas como fruto de fenômenos episódicos, do tipo Hungria de 1954 e Holanda de 1974.

Mas, mais do que de seu futebol, adoro a Argentina, país onde é sempre um prazer estar, nem que seja para simplesmente caminhar pela inigualável avenida de Mayo. Julio Cortázar, embora morasse em Paris, certa vez disse que caminhar por Buenos Aires era o maior ou um dos maiores prazeres de sua vida. Conheço vários argentinos e argentinas agradabilíssimos.

Mas voltemos a Messi. Até mesmo eu fiquei um pouco condoído pela dor do craque com a perda do pênalti que custou a derrota para o Chile. Porque a derrota é de fato triste. Mas a pieguice que embalou muitos e o oportunismo mancheteiro que motivou outros, sinceramente, é da dar tédio, ou raiva, dependendo do momento. 

Para mim, "A tristeza de Messi é a tristeza do futebol", como escreveu Mário Magalhães em seu blog no Uol, francamente, superou tudo em tolice, inclusive o sentimentalismo piegas dos amigos ou amigas que se emocionaram a não mais poder com a imagem de uma mulher enxugando as lágrimas de Messi.

Só para ficar no futebol: e a alegria do Chile, construída com talento e aplicação, um time taticamente impressionante, a seleção de Alexis Sánchez e Arturo Vidal, não conta? Conta só o que dá ibope? O triunfo chileno e "tudo isso é importante, mas a tristeza do Messi é mais", escreveu o blogueiro. Ora, por quê? 

Por acaso, quando Roberto Baggio, um dos maiores craques do futebol italiano, e portanto do futebol mundial, em 1994, perdeu o pênalti contra o Brasil não foi "a tristeza do futebol" também, só porque o vencedor foi a seleção pragmática e covarde de Carlos Alberto Parreira venerada por Galvão Bueno?

Ou, voltando um pouco mais, quando Zico, um dos maiores que vi jogar (para mim mais jogador do que Messi) perdeu o pênalti contra a França em 1986, não foi "a tristeza do futebol" também, só porque perdemos, e então o sentimento tinha de ser outro que não o da pena? "A decepção da seleção de Zico", pode-se achar facilmente hoje numa busca no Google sobre o tema.

Messi perdeu. O esporte é assim. Perde-se. Até Pelé perdeu. Aliás, não foi nem a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que Messi perdeu um título junto com a Argentina. Messi, um dos maiores craques do século 21, nunca ganhou nada por seu país, onde, diga-se, nunca jogou profissionalmente, já que saiu dos infantis do Newell's Old Boys aos 13 anos para alçar a glória no Barcelona.

A mídia precisa de heróis, para vender manchetes. Mas Messi não chega ao maravilhoso pé esquerdo de Maradona, que ganhou sozinho a Copa do Mundo de 1986 para seu país, num dos momentos épicos e inigualáveis da história do futebol.

Messi hoje é um herói, há anos é o queridinho da mídia, esta semana virou o símbolo da tristeza e vende muitas manchetes. Por isso mesmo, porque o mundo precisa de manchetes e de quem as compre, virão outros.

Podem ficar tranquilos. O craque nascido em Rosario que perdeu o pênalti no domingo continuará feliz lá na Catalunha. E os chilenos, outrora menosprezados por seus próprios compatriotas, estão muito felizes com o bicampeonato. É muito justo.


sábado, 18 de junho de 2016

O fenômeno Dilma



Roberto Stuckert Filho/PR
Dilma na sexta 17, na Universidade Federal de Pernambuco

A história costuma ser irônica. Mais uma prova disso é que, duramente criticada inclusive por seus pares de PT, Dilma Rousseff pode ser a via pela qual o próprio PT pode vir a se recuperar como partido, pelo menos em parte. Com toda a crise que levou o Brasil a uma das fases mais obscuras de sua história, Dilma tem protagonizado nas últimas semanas um fenômeno extremamente interessante: sua popularidade cresce a olhos vistos. Mais do que isso: ela está  superando a popularidade que poucos (ou ninguém) esperavam que poderia ter.

Dilma merece algumas das críticas já conhecidas, como o caráter centralizador de seus governos e a mediocridade de seus ministros, com algumas exceções, assim como ter entregado alguns de seus ministérios a próceres da direita - e Gilberto Kassab é o mais acabado exemplo. Mas tenho visto de maneira diferente a crítica sobre sua incapacidade de "fazer política", que, se é procedente até certo ponto, deve ser relativizada. Seria incompetência "não saber negociar" com uma geração de políticos e um Congresso que são a própria materialização da corrupção e do ideário da direita?

A própria Dilma questionou essa crítica, que se faz a ela diuturnamente (e que eu mesmo já fiz), na entrevista a Luis Nassif na segunda-feira 13 (leia aqui). “Atribuía-se a mim (o problema de) não querer negociar. Mas não tem negociação possível com certo tipo de prática”, disse, em referência a Eduardo Cunha e seu bando.

Esse "problema" ou "defeito" de Dilma é, antes, uma virtude.

Minha imaginação me leva, conduzido por Platão, a uma situação. Imaginemos que o Brasil fosse hoje um país que, com todas as suas características (a diversidade principalmente), estivesse no patamar de uma nação desenvolvida e politicamente respeitada, na qual as oligarquias espúrias tivessem sido reduzidas a sombras da história e não mais influenciassem a vida do país.

Nessa hipótese platônica, governando um país que tivesse superado sua triste vocação a colônia, Dilma Rousseff seria uma presidente e líder sofisticada. Que poderia sofrer derrotas e conquistar vitórias políticas, mas não precisaria se submeter à canalha politicagem brasileira. Sem precisar "negociar" com chefes de gangs, Dilma apenas governaria.

Embora acusada de ser uma tecnocrata, ela poderia tocar seus projetos para o pré-sal, por exemplo, o maior tesouro da indústria do petróleo descoberto neste século, e um dos principais motivos do golpe que, como se sabe, tem a mão do imperialismo (leia aqui). Digo que o pré-sal é um dos principais motivos do golpe porque não é o único: nossa água é outro.

Por falar em império, lembremos Barack Obama, para fazer uma comparação. O presidente dos Estados Unidos teve muitas dificuldades a partir de novembro de 2014, quando passou a ter minoria no Congresso. Mas a democracia norte-americana é estável e Obama não ter maioria não significa golpe. Muito longe disso. No Brasil, afrontar o mercado financeiro (como Dilma fez ao rebaixar a taxa de juros Selic entre 2012 e 2013) e se recusar a negociar com bandidos no Congresso foram gasolina no fogo do golpismo.

Por incrível que pareça, Dilma já é um passo à frente do petismo lulista. Com todos os seus erros, ela tem incendiado uma militância até outro dia adormecida, o que parecia absurdo um ano atrás, quando era considerada traidora do programa de governo com o qual se elegeu, e graças à militância do movimento social que, diga-se, deu um caráter muito além do PT a sua eleição.

Acho importante lembrar que, no contexto do apodrecido presidencialismo de coalizão brasileiro, se Dilma é responsabilizada por ser politicamente incompetente, não foi ela, mas Lula, quem fechou acordo com o PMDB de Temer e Sarney.

Não foi certamente à toa que o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, um mestre insuspeito, em artigo publicado na Folha ontem, 17, comparou Dilma Rousseff a Joana d'Arc (leia aqui).


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Dilma: virada contra seu governo "combina com as manifestações de junho de 2013"



Roberto Stuckert Filho/ PR


Ainda há setores da esquerda que, data venia, ingenuamente, continuam a achar que as manifestações de 2013 foram um show de espontaneidade e democracia jovem.

Mas não param de surgir novas manifestações de pessoas insuspeitas, por sua posição ou conhecimento, que mencionam as estranhas coincidências, as quais permitem uma fácil associação entre, por exemplo, o que ocorreu no Brasil e a chamada Primavera Árabe, ou Revolução Colorida, como preferem alguns. Desta vez foi ninguém menos do que a própria presidente Dilma Rousseff.

Na entrevista a Luis Nassif que foi ao ar ontem na TV Brasil, Dilma fez a seguinte observação sobre a “virada” que se deu a partir de determinado momento em que sua tentativa de baixar a taxa de juros Selic desafiou setores muito poderosos do capital financeiro mundial. Lembremos que a taxa Selic era de 7,25% em abril de 2013, mas já estava a 10% no final do mesmo ano. Dilma disse: "Tem um grau de financeirização na economia brasileira em que todos os setores têm interesse na rentabilidade financeira. Havia uma grande resistência à queda da taxa de juros. Agora, se você me perguntar como é que vira, vira num momento muito estranho, porque se combina com as manifestações de junho de 2013."

Em abril, conversei com Analúcia Danilevicz Pereira, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que fez a seguinte análise: não é por acaso que a oposição, que desencadeou um bombardeio desde o primeiro dia após a reeleição de Dilma, tenha conseguido "virar o jogo", que estava a favor do governo, coincidentemente a partir das manifestações de 2013. Notem: a professora usa o mesmo termo que Dilma: “virar”. 

"Sim, este interesse (de que o governo Dilma chegue ao fim) existe. Abriu-se espaço para que a oposição, que estava extremamente fragilizada, conseguisse rapidamente um espaço de atuação. Se considerarmos o momento em que todas essas coisas acontecem, mais claramente a partir de 2013, em três anos a oposição virou o jogo no Brasil", disse Analúcia. Sobre essa e outras questões, ela usou a expressão: “Eu não acredito em coincidências”. (Leia a entrevista na íntegra: "Não acredito em coincidências", diz analista sobre interesse dos EUA na queda de Dilma).

Outro de quem ouvi análise semelhante foi o professor de Ciência Política da Universidade de Campinas (Unicamp) Armando Boito. Segundo ele, "as manifestações de junho de 2013 foram confiscadas pela direita para fortalecer o campo neoliberal ortodoxo".

Mais um, de quem li um artigo muito interessante, F. William Engdahl, engenheiro (Princeton), pós-graduado em economia comparativa (Estocolmo), pesquisador de economia, geopolítica e geologia, escreveu o seguinte, como já registrei neste blog: "Dilma Rousseff tinha uma taxa de popularidade de 70 por cento. Menos de duas semanas depois da visita de Joe Biden ao Brasil, protestos em escala nacional convocados por um grupo bem organizado chamado 'Movimento Passe Livre', relativos a um aumento nominal de 10 por cento nas passagens de ônibus, levaram o país virtualmente a uma paralisação e se tornaram muito violentos. Os protestos ostentavam a marca de uma típica 'Revolução Colorida', ou desestabilização via Twitter, que parece seguir Biden por onde quer que ele se apresente. Em semanas, a popularidade de Rousseff caiu para 30 por cento." Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, veio ao Brasil em maio de 2013. O post  com a análise de Engdahl está aqui: Dilma Rousseff, Getúlio Vargas e as coincidências.

De maneira, meus amigos, que basta um mínimo de bom senso para ver que não se trata de impertinência deste blogueiro, conforme já me acusaram. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça (Mateus – 13:9).


sábado, 4 de junho de 2016

Muhammad Ali (1942-2016)



Na morte todos se lembram. Tudo parece já ter sido dito de ontem para hoje sobre o maior lutador de todos, o guerreiro que se negou a lutar no Vietnã e se converteu ao islamismo. O que não é pouco nos Estados Unidos dos 1960 e 1970 em que ele reinou. 

Nascido em Louisville, no Kentucky, foi proibido de atuar por três anos e meio, pela recusa a ser soldado do império. O soldado se foi. Mas, mais do que palavras que se esforçam por ser diferentes, registro as imagens. As dele próprio, quando nocauteou o gigante Foreman no Zaire (hoje Congo), na até hoje chamada luta do século, em 1974, e na entrevista histórica que muita gente já viu. 

Ele foi um dos que ajudaram a tornar o mundo melhor, pela estética e pela sabedoria. O dançarino se foi. As imagens e palavras (dele) ficam.


 A luta




As palavras

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Laymert Garcia dos Santos: "Golpistas sabem que o relógio corre contra eles"


Reprodução/Youtube


Publicado originalmente na RBA

Três semanas após a votação que afastou a presidenta Dilma Rousseff, dois fenômenos merecem destaque, segundo o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O primeiro é que a grande ficha começou a cair, com a reação dos movimentos organizados, mas também de setores que a gente não esperava que tivessem tanta energia, mas tiveram uma reação enorme e muito importante. Do ponto de vista do golpe, constatamos que eles têm que fazer tudo correndo, porque sabem que o relógio corre contra eles, com o crescimento da mobilização popular, diz.

“Onde os movimentos foram para a ofensiva, houve recuo de Temer. Onde não houve ofensiva, não acontece nada, continua o jogo da direita avançando.” Ele menciona como exemplos de ofensivas bem-sucedidas na reação contra o golpe os casos das mulheres (Temer voltou atrás da extinção da secretaria), da habitação (recuo nos cortes no Minha Casa, Minha Vida) e cultura (recriação do ministério).

“Apesar da mídia, a cada dia que passa você tem uma situação de rastilho de pólvora contra o golpe. Isso, do ponto de vista interno”, avalia. “Do ponto de vista externo, depois daqueles episódios grotescos do Congresso (ao votar o impeachment), houve uma reação internacional. Isso foi uma surpresa para os golpistas, que achavam que iam fazer a coisa suave e com uma aparência de legalidade. Mas isso não colou nem interna, nem externamente.”

Em entrevista à RBA em março, portanto antes do golpe, o sociólogo disse que os movimentos sociais e populares só conseguiriam obter resultados se fossem para o ataque. “A resistência não pode ser só uma coisa defensiva, tem que avançar”, afirmou.

O segundo ponto de destaque, com Dilma afastada, “foi a rapidez com que o golpe dentro do golpe se declarou”, diz o sociólogo. “Ou seja, o conflito entre os golpistas e a tentativa de transferir o poder ao PSDB – que não tinha o cacife que tinha o baixo gangsterismo do PMDB para consumar o golpe –, mas que agora quer o poder. Eu chamo de golpe dentro do golpe a tentativa de criminalizar o PMDB, que já era criminoso desde lá atrás, para transferir o poder para o PSDB”, avalia. “Tudo isso está na mídia internacional. O golpe sai do baixo clero bandido e vai para o alto clero bandido, que são os interlocutores dos americanos e da alta finança. Os outros (PMDB) foram massa de manobra nessa história, e agora vão ser queimados.”

A atuação do Judiciário está agora muito mais clara, na opinião de Laymert. “O problema principal para mim, desde meses atrás, era a Procuradoria-Geral de República e o papel do STF. Agora já escancarou que as altas instâncias do Judiciário são golpistas. Neste segundo momento, o que me espanta mais é a velocidade com que isso se explicitou, através dos vazamentos. Mas também isso faz parte da luta pelo poder dentro do golpe.”
MTST e Povo Sem Medo

Segundo o sociólogo, a “vitória” do MTST e Frente Povo sem Medo, em decorrência de sua mobilização, é importante do ponto de vista simbólico e político. A manifestação na frente da casa de Temer, em São Paulo, e depois a ocupação do escritório da Presidência da República, também na capital paulista, são dois exemplos de atos vitoriosos, em sua opinião. “Esses atos tiveram uma carga de densidade enorme e demonstram grande inteligência política.”

O mesmo se aplica às mulheres. “Eu não esperava que a politização das mulheres fosse tão forte a ponto de demonstrarem capacidade de mobilização nacional.” Para Laymert, as associações políticas feitas por elas também demonstraram inteligência política.

“Elas fizeram uma ligação, que tem tudo a ver, entre o estupro do Rio de Janeiro e o estupro, digamos, político que foi o golpe. E, mais, fizeram a ligação entre Gilmar Mendes e (Roger) Abdelmassih (médico acusado de abusar sexualmente de pacientes) e Bolsonaro. Elas fizeram ainda associações que mostram sempre a questão que está por trás do estupro, que é a impunidade.”

As ocupações em escala nacional de prédios do Ministério da Cultura e do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da Funarte, pelos artistas, também surpreenderam positivamente. “A gente não esperava que isso acontecesse com essa velocidade.”

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Analista de The Wall Street Journal diz que chance de Sanders vencer Hillary é real


Fotos: Reprodução/Youtube


O analista político Douglas E. Schoen escreveu ontem, no jornal The Wall Street Journal, um veículo conservador, que há hoje bem mais "do que uma possibilidade teórica de que Hillary Clinton não seja a candidata democrata" para as eleições presidenciais norte-americanas em novembro.

Até agora considerada inevitável, a nomeação de Hillary poderá começar a fazer água se ela perder as primárias na Califórnia, dia 7 de junho, para Bernie Sanders. Segundo o analista, essa possibilidade pode "muito bem" acontecer.

Segundo Schoen, a Califórnia reúne fatos que demonstram que o Estado tende para Sanders. Por exemplo: em meados de maio haveria cerca de 1,5 milhão de eleitores democratas recém-registrados desde janeiro, o que representaria um crescimento de 218% nos registros de eleitores democratas em comparação com o mesmo período em 2012. Esse seria um forte sinal a favor de Sanders.

Se se confirmar, uma vitória Sanders na Califórnia seria um poderoso sintoma de que Hillary  pode não ter a força que se imaginava, como candidata democrata, avalia o analista. "E se Sanders vencer em Montana, Dakota do Norte (cenário aliás do grande filme Fargo, de Joel Coen) e se mostrar competitivo em Nova Jersey", poderia conseguir mudar votos de superdelegados democratas antes a favor de Hillary.

Nas últimas semanas, a avaliação de que a ex-secretária de Estado de Barack Obama seria a mais forte contra Donald Trump "se evaporou", diz o analista. Pesquisas mostram um empate técnico entre ela e Sanders na Califórnia.

E há ainda outra "fratura" no argumento a favor de Hillary, diz Schoen: "Sanders corre consistentemente mais forte do que ela (num eventual embate) contra Trump nacionalmente, batendo-o por cerca de 10 pontos percentuais em uma pesquisa recente.

A pergunta que fica, no momento, é: será?