sábado, 20 de agosto de 2016

Considerações sobre as andorinhas


Para Carmem, Ivani, Roseli e Tania


Fotos: Carmem Machado


Nessa época do ano, em determinadas horas do dia, tem uma revoada de andorinhas por aqui, na árvore abaixo da janela da sala, no Butantã. Dezenas e dezenas delas voando em revoada. Uma ou outra pousa na árvore desfolhada pelo inverno.

As andorinhas voando são algo lindo de se ver. Em conjunto, formam um redemoinho  no ar. Individualmente, têm as costas azul-marinho, as asas pretas e o peito branco, de modo que em voo passando perto da janela causam uma impressão forte, porque são muito bonitas. Vendo-as pousadas, como a da foto, não dá a ideia. É preciso vê-las voando - mas esse espetáculo é impossível de fotografar, a não ser que você tenha um equipamento do tipo National Geographic.

Você escuta um leve dialogar, sutil, um piado suave que vem daquele redemoinho como se viesse do éter, de todas as partes.

Vendo esse balé aéreo, fico espantado ao lembrar de ver colegas ou amigos na infância matar passarinhos como esses. Eu nunca matei sequer um, embora matar sempre tenha sido, ao longo dos séculos, uma prova de virilidade masculina e supremacia humana diante da natureza.



(Quando eu e meus irmãos éramos moleques, nós e dois de nossos amigos tínhamos uma espingarda de chumbo cada um. Eu nunca nem mesmo mirei em um pássaro. O único ser vivente que matei com aquela arma foi um rato que tinha caído na piscina do quintal da casa de um amigo: fizemos uma competição da qual participaram quatro de nós, pela qual cada um tinha sua vez de atirar no rato, de uma distância grande, creio que a uns 7 ou 8 metros dos atiradores, até que eu acertei o rato bem na espinha, e fiquei com dó, porque o tiro paralisou as patas traseiras mas ele ficava batendo as dianteiras enquanto afundava morto. Mas rato é rato.)

Eu, não. Passarinho nunca matei. Nunca me senti superior à natureza. Pelo contrário, diante dela não sou quase nada, sou apenas um fruto dela e estou sujeito a seus caprichos e belezas. 

7 comentários:

Roseli Costa disse...

Lindo texto. Lindas fotos. Exalam poesia. Também sou daqueles que reverenciam a natureza, em especial os gatos, os cavalos, as flores e as plantas. (Não me lembro de ter matado qualquer animal, a não ser baratas; e, creiam, faço com dó.) Dão-me paz e uma sintonia difícil de encontrar no burburinho da selva de concreto e nas relações intrincadas que travamos no resto do mundo que não na natureza. Os pássaros são, do mesmo modo, demasiado belos. Eu os admiro pela leveza, colorido e habilidade de voar. Contudo, por experiências pessoais com vizinhos e cunhados, trazem consigo imagens doloridas de gaiolas e maus tratos pela sua aparente fragilidade. Os peixes também. Causa-me aflição ver peixes em aquário. Às vezes sou visitada por beija-flores, que olham do terraço para dentro da sala. Momento único, sublime, delicado. Daquela delicadeza de que todos somos carentes, humanos machucados pela rudeza da existência.

Eduardo Maretti disse...

"Às vezes sou visitada por beija-flores, que olham do terraço para dentro da sala"

Tania Lima disse...

Quanto mais anos carregamos nas costas, mais nos lembramos da infância e seus acontecimentos. Sobre pássaros, lembro-me de um que tínhamos numa gaiola (ali mantido a revelia de todos, exceto de meu pai). Numa manhã notamos que na gaiola só havia metade do pássaro e essa metade teve seu funeral no quintal da casa, sob os muitos pés de bananeiras que abundavam no quintal. As crianças (eu, minha irmã mais velha e meu irmão, este último, falecido no mês passado), ficamos tristes o suficiente para que nunca mais meu pai tivesse a infeliz ideia de aprisionar pássaros. Ainda na infância, sempre que da escola a caminho de casa eu via pássaros presos em gaiolas, desejava ser uma espécie de herói que triunfantemente libertava essas aves de seus algozes. Depois passei a desejar wafers (comprados por minha mãe na feira e oferecidos com parcimônia às crianças no lanche da tarde). Os desejos, como se pode observar, foram caindo em decadência. Já não sou louca por wafers, mas aos pássaros mantenho muito apreço e admiração. A dedicatória deixou-me envaidecida. Meu nome, corretamente grafado, encurvadinho pelo itálico (como se em reverência) é já um agradecimento pela gentil dedicatória.

Paulo M disse...

Este post está um verdadeiro show de crônicas, da arte de escrever, a começar pelo blogueiro, e continuando com os comentários.

Um 'chegado' me contou mais ou menos recentemente a história de seu pai como caçador de pássaros. Era uma prática esportiva sua matar pássaros, com espingarda, estilingue ou o que fosse, como o hábito, em geral de gente chique, até décadas passadas (e provavelmente ainda hoje), de sair pra caçar e retornar com a prova do trinfo dentro de algum saco cinza. Um dia, voltando pra casa, o velho foi seguido por um animal da mesma espécie de um outro que ele tinha abatido. O bicho, segundo o relato, foi voando e desferindo ataques até que o velho chegasse ao portão. O velho, possivelmente por ser crente e pelo egoísmo de temer a Deus, e não pelo respeito à vida, nunca mais matou animais.

Lamento, Tania, a morte de teu irmão.

Eu me lembro do livro "Amy, minha filha", em que o autor, Mitch Winehouse, disse, no final, ter recebido a 'visita' de borboletas e, se não me engano, de pássaros, e que ele julgava ser uma outra conformação material de sua filha cantora morta.

Extinguir a vida, que seja de uma planta, por mero prazer é a prova de uma alma estéril.

Quem sabe se essas visitas de beija-flores ou de borboletas não têm um significado além de suas cores?

Roseli Costa disse...

É sempre um prazer ler Paulo Maretti com suas acuradas palavras e observações detalhistas, próprias de um virginiano. E também é prazerosa a oportunidade de verbalização do nosso carinho e respeito pelos animais e pela natureza suscitada pela crônica do Edu. Tania, sinto pela perda de seu irmão. "Assim é a vida", disse você no whatsapp. E é. Que tenhamos mais momentos para trocar sobre sentimentos e experiências pessoais.

Eduardo Maretti disse...

Belas intervenções, gente. Nem dá pra responder tudo. Cada um de vocês escreve uma crônica que só enriquece a ideia central do que eu quis dizer.

Já destaquei uma frase de Roseli, e destaco mais essas:

"As crianças (eu, minha irmã mais velha e meu irmão, este último, falecido no mês passado), ficamos tristes o suficiente para que nunca mais meu pai tivesse a infeliz ideia de aprisionar pássaros." (Tania)

"Extinguir a vida, que seja de uma planta, por mero prazer é a prova de uma alma estéril." (Paulo)


ferreira marcoantonio disse...

Esse bichinho da foto não é Andorinha. Me parece um Assum Preto, ou um "passupreto", pássaro preto.As penas daa Andorinhas são como uma pele, bem fechadas impenetráveis. Elas voam a grandes altitudes indo até os polos, daí a necessidade de ter penas tão especiais, como os Pinguins. Também a Andorinha te o Rabo em tisourinha, é menor que o passupretu e tem a cabeça diferente, não sei explicar, acho que falta pescoço, é como um bólido, um míssil.
O assum preto é cantor, também andam em bandos, adoram os arrozais e toda lavoura. Quando ele canta os outros se calam, para escutar, é lindo.
Na música de Luiz Gonzaga,.. assum preto cego du zói não vendo a luz canta de dor...
T. Jobim, a.março, ...passarinho na mão, pedra de atiradeira.
...Muito cuidado o homem vem aí....