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sexta-feira, 7 de abril de 2017

A versão idiota de Hollywood sobre a ciência e a ficção científica



Independence Day: exemplo de filme que ninguém deveria ver

Ler um livro sério sobre os temas ciência e astrofísica não quer dizer que você não possa dar risada, se o autor é capaz de tirar umas linhas para usar a ironia e o bom humor. Como eu  gosto de cinema, de ficção científica e também de ciência e astrofísica (lógico que como um pobre e leigo mortal), me diverti com uma passagem do livro Morte no Buraco Negro, de Neil deGrasse Tyson.

É o trecho de um capítulo em que o autor comenta filmes hollywoodianos de ficção científica, no qual discorre sobre abordagens falhas, absurdas ou simplesmente idiotas de alguns desses filmes, sob a ótica da ciência ou mesmo da lógica. Afinal, alguma lógica deve basear a ficção científica ou as suposições de vida alienígena inteligente.

Gosto muito de filmes de ficção científica, como a obra-prima 2001: uma Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968), Blade Runner (Ridley Scott, 1882) e Interestelar (Christopher Nolan - 2014). E mesmo de filmes menos "sérios", digamos assim, como Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977) e De Volta Para o Futuro (Robert Zemeckis, 1985), sem os quais, reconheçamos, a vida seria um pouco menos legal.

Mas não tive o desprazer de ver Independence Day (Roland Emmerich, 1996). É sobre esse filme o comentário abaixo do livro de Neil deGrasse Tyson:

"E não me façam falar do sucesso de bilheteria do verão de 1996, Independence Day. Não acho nada particularmente ofensivo em alienígenas malvados. Não haveria indústria cinematográfica de ficção científica sem eles. Os alienígenas de Independence Day eram definitivamente maus. Pareciam um cruzamento genético entre uma caravela-portuguesa, um tubarão-martelo e um ser humano. Embora concebidos mais criativamente do que a maioria dos alienígenas de Hollywood, seus discos voadores eram equipados com cadeiras de espaldar alto e descanso para os braços.  

Alegro-me que, no final, os humanos vencem. Conquistamos os alienígenas de Independence Day fazendo um computador laptop Macintosh introduzir um vírus de software na nave mãe (que é por acaso um quinto da massa da lua) para desarmar seu campo protetor. Não sei quanto a você, mas eu tenho dificuldade em fazer upload de arquivo para outros computadores dentro de meu próprio computador, especialmente quando os sistemas operacionais são diferentes. Há apenas uma única solução. Todo o sistema de defesa da nave mãe alienígena devia ser alimentado pela mesma versão do sistema de software da Apple Computer usada pelo laptop que introduziu o vírus.

Obrigado por me ouvirem. Eu tinha que desabafar."

Aqui entre nós: muito bom esse desabafo.

Leia também:

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica

As maravilhas do cosmos, segundo a astrofísica (parte 2)

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar


domingo, 19 de março de 2017

As maravilhas do cosmos, segundo a astrofísica (parte 2)


"Todos temos algum conhecimento em que acreditamos cegamente, porque não podemos testar de modo realista toda afirmação pronunciada por outros. Quando eu lhe digo que o próton tem uma contraparte de antimatéria (o antipróton), você precisaria de equipamentos de laboratório de 1 bilhão de dólares para verificar minha afirmação. Assim, é mais fácil acreditar em mim e confiar em que, ao menos na maioria das vezes, e ao menos com relação ao mundo astrofísico, eu sei do que estou falando. Não me importa se você continua cético. Na verdade, eu encorajo sua atitude. Sinta-se à vontade para visitar o acelerador de partículas mais próximo e ver a antimatéria com seus próprios olhos."
(Neil deGrasse Tyson, em Morte no Buraco Negro)



Onda "de choque" da explosão da supernova SNR 0509,
na Grande Nuvem de Magalhães, a cerca de 160.000 anos-luz da Terra

Escrevi um post sobre o livro Morte no Buraco Negro, de Neil deGrasse Tyson, que merece uma complementação com um segundo post. Porque o livro é muito abrangente e porque eu aludi, na primeira publicação, que uma passagem da obra aproxima sua visão da abordagem do filme Interestelar, uma visão antropocêntrica sobre o cosmos.

Na verdade, o livro do astrofísico norte-americano não é antropocêntrico, como a princípio me pareceu. Antropocêntrica é a visão da física-ciência mais tradicional, como a do físico brasileiro Marcelo Gleiser, que, se é importante, é, entretanto, uma voz da ciência dominante, hoje relativamente ultrapassada, inclusive, e principalmente, por sua visão antropocêntrica da física e da ciência.

O astrofísico deGrasse Tyson, discípulo de Carl Sagan, relativiza o antropocentrismo da ciência tradicional. "Declarar que a Terra deve ser o único planeta com vida no universo seria uma arrogância indesculpável de nossa parte", diz o autor de Morte no Buraco Negro. E aí ele faz uma afirmação cabal: "Muitas gerações de pensadores, tanto religiosos como científicos, têm sido desorientadas por pressuposições antropocêntricas, enquanto outras foram simplesmente desencaminhadas pela ignorância. Na ausência de dogmas e dados, é mais seguro ser guiado pela noção de que não somos especiais, o que geralmente é conhecido como princípio copernicano".

Bem, a pequena obra-prima da literatura científica que é Morte no Buraco Negro tem inúmeras outras passagens que, só por cada uma delas individualmente, já valeria a pena ler.

Como o belíssimo capítulo 21, "Forjados nas estrelas", em que o autor discorre sobre o eterno ciclo de explosão e morte de uma estrela (supernova), a formação de poeira cósmica, que engendra reações químicas e assim até a formação de novas estrelas e sistemas, no ciclo interminável.

Sobre a vida


Lemos que os quatro elementos mais comuns no Universo são hidrogênio, hélio, carbono e oxigênio. "O hélio é inerte. Assim, os três elementos quimicamente ativos  mais abundantes no cosmos (hidrogênio, carbono e oxigênio) são também os três principais ingredientes da vida na Terra."  Por essa razão, pode apostar que, se for encontrada vida  em outro planeta, ela será feita de uma mistura semelhante de elementos."

Mesmo assim, alguns cientistas consideram que o silício pode substituir o carbono na formação da vida. Até pode, mas com ressalvas importantes, como observa o autor. "Considere o silício, um dos dez principais elementos do universo. Na tabela periódica, o silício está diretamente abaixo do carbono, indicando que eles têm um configuração idêntica de elétrons, em suas cascas exteriores. Como o carbono, o silício pode se ligar com um, dois, três ou quatro átomos. Sob condições corretas, pode também criar moléculas de cadeia longa. Como o silício oferece oportunidades químicas similares às do carbono, por que a vida não poderia ser baseada no silício?"

Os problemas do silício, explica deGrasse Tyson, são dois: o fato de apresentar um décimo da abundância do carbono no cosmos e as fortes ligações que ele cria: "Quando você liga silício e oxigênio, por exemplo, não obtém as sementes da química orgânica; você obtém rochas".

Titã



Titã, a lua de Saturno, em cores não reais, mas captadas pela NASA em diferentes
longitudes de onda com espectrômetro de cartografia infravermelha 

As especulações sobre supostas condições de vida em nosso sistema solar são muito interessantes também, no livro. "Em 2005, a sonda Huygens, da Agência Espacial Europeia (...) aterrissou na maior lua de Saturno, Titã, que abriga muita química orgânica e sustenta uma atmosfera dez vezes mais pesada que a da Terra. Deixando de lado os planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, cada um feito inteiramente de gás e sem superfície rígida, apenas quatro objetos em nosso sistema solar têm uma atmosfera de alguma importância: Vênus, Terra, Marte e Titã", diz o autor.

O "currículo impressionante de moléculas" de Titã, continua, inclui água, amônia, metano e etano, "bem como os compostos de múltiplos anéis conhecidos como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos". Segue o texto: "O gelo de água é tão frio que tem a dureza do concreto. Mas a combinação de temperatura e pressão do ar tem liquefeito o metano, e as primeiras imagens enviadas pela Huygens parecem mostrar correntes, rios e lagos de metano. Em alguns aspectos, a química da superfície de Titã se parece com a da jovem Terra, o que explica por que tantos astrobiólogos veem Titã como um laboratório 'vivo' para estudar o passado distante da Terra".

Enfim, o livro aborda uma temática tão vasta que pesquei apenas alguns aspectos quase aleatoriamente: se eu fosse falar de todos os temas e pensamentos do livro, ficaria aqui para sempre. A ideia não é essa. Eu sou um ignorante. Como aliás somos todos nós, pobre mortais humanos. Só digo que a leitura de Morte no Buraco Negro vale muito a pena.

Leia também:

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Vamos ver cinema? – uma pequena lista de grandes filmes


Antigamente a gente indicava filmes e as pessoas podiam ir à videolocadora e alugar, levar pra casa e assistir. Hoje, essa era romântica acabou, junto com as videolocadoras. Seja como for, seja no Netflix, na TV a cabo, baixando na internet ou por outra forma, qualquer um desses filmes listados abaixo deve agradar a amantes do cinema que gostam de aproveitar feriados para poder fazer coisas mais úteis do que não fazer nada, como ver um grande filme.

Os Imperdoáveis  (Dir. Clint Eastwood - 1992).

Morgan Freeman e Clint Eastwood 
Os Imperdoáveis é um dos grandes filmes que já vi, e que vale a pena ver, se a alma não é pequena, ou seja, mesmo se você acha que o western é uma coisa imperialista, norte-americana e desprezível, e que a arte deve ser instrumento de luta política. A arte não tem nada a ver com luta política. A arte transcende isso. Um pouco mais sobre essa obra-prima de Clint Eastwood aqui: Os Imperdoáveis .


Era uma vez no Oeste (Dir. Sergio Leone - 1968) - O maior western de todos os tempos. Épico, antológico e genial. O texto publicado no blog é de Nicolau Soares e está no link: Era uma vez no Oeste.



Os outros (dir. Alejandro Amenábar - 2001). No gênero "terror", uma obra-prima. Atuação magistral de Nicole Kidman. Mas o termo "terror" não define este filme, que é mais próximo de uma abordagem que eu considero espírita, comparável a O Sexto Sentido (direção de M. Night Shyamalan – 1999). A resenha de Os Outros está aqui: Os outros, um filme espírita.






Interestelar (dir. de Christopher Nolan - 2014).


Matt Damon em Interestelar: interpretação magnífica
Algumas pessoas têm críticas que me parecem muito acadêmicas sobre este filme que, particularmente, me fascina. Tem que desculpar  alguns hollywoodianismos, como já escrevi. Para quem gosta de ficção científica, é uma maravilha. Para quem gosta de ciência, também. O filme discute questões ligadas à Física com uma abordagem possível, para a linguagem do cinema, dada a complexidade de algumas delas, como a Teoria da Relatividade e outras. Escrevi sobre o filme dois posts, que você pode ler a partir deste: Uma resenha sobre Interestelar.


Melancolia (dir. Lars von Trier - 2011).


Kirsten Dunst como Justine, no belíssimo Melancolia
Um contraponto à ficção científica Interestelar, o filme existencialista Melancolia, do diretor de Dogville Dançando no Escuro, é inquietante e belo. Quem conhece o cinema da Lars von Trier não deve se surpreender com nada. Melancolia ("Melancholia", no original) é uma obra-prima riquíssima em imagens e metáforas do diretor, dinamarquês como Sören Kierkegaard.


James Coburn e Rod Steiger
Quando explode a vingança, de Sergio Leone. Já escrevi sobre este filme  aqui. Não tem como não gostar, se você gosta de western. É uma epifania.


The Ghost Writer (Dir. Roman Polanski)

The Ghost Writer, de Roman Polanski (2010). Ewan McGregor interpreta um ghost writer que acaba trabalhando para o primeiro-ministro britânico. Um thriller típico de Polanski. 

Kim Cattrall e Ewan McGregor
O thriller de Polanski, não ganhou o Urso de Ouro em Berlim à toa. De fato, é um Polanski em grande forma. O diretor do antológico O Bebê de Rosemary continua com seu estilo peculiar de fazer filmes. Quando você começa a se entediar achando que o filme virou clichê, ele destrói o clichê. Como Coppola, Polanski usa bem a máquina de Hollywood.



Vincent Gallo, em Tetro
Tetro (dir. de Francis Ford Coppola – 2009). É em parte ambientado em Buenos Aires, com destaque para o bairro La Boca. Tetro (Vincent Gallo – na foto) é um homem solitário e enigmático que vive com sua companheira na capital argentina. Ele recebe a visita de seu irmão mais novo, Bennie (Alden Ehrenreich), em busca do contato perdido. Com esse filme, Coppola mostra que ainda existe arte no cinema. Imperdível. Se quiser saber mais sobre Tetro, clique aqui.

Um homem bom (Good, no original em inglês – direção: Vicente Amorim - 2008). O texto que publiquei no blog, Um homem tolo, foi escrito pelo companheiro Felipe Cabañas da Silva. Pode parecer um trocadilho infame, mas esse é talvez o mais delicado filme sobre o holocausto, muito valorizado pela atuação magistral de Viggo Mortensen como John Halder, um professor de literatura na Alemanha dos anos 30 que, devido a sua tese sobre a eutanásia, atrai a atenção do governo nazista. Halder/Mortensen  se deixa envolver. A violência é psicológica, sem a híperdramatização fácil dos filmes do gênero. Uma curiosidade: o diretor do filme, Vicente Amorim, é filho do ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.

Sobre o mesmo tema holocausto, outro filme que vale a pena é O Menino do Pijama Listrado (dir. Mark Herman – 2008), uma impactante história de amizade entre dois meninos de sete ou oito anos, um judeu e um alemão.


Frances McDormand
Fargo, um clássico dos irmãos Coen (1996). Em termos de thriller policial, é um dos meus filmes preferidos. A direção de atores de Ethan e Joel Cohen já vale a pena. Frances McDormand (à direita) como a policial provinciana de Dakota do Norte é uma interpretação magistral, assim como de todo o elenco. Com o perdão do trocadilho, crítica violenta à cultura da violência dos Estados Unidos. Escrevi sobre Fargo neste link.




Os Incompreendidos de François Truffaut, é um filme que sempre vamos assistir com emoção.


A delicadeza com que o cineasta francês trata do tema da difícil adolescência de um menino rejeitado pelos pais – que odeia a escola, que descobre que a mãe tem um amante e, diante de tantas dificuldades, foge de casa – é muito diferente da proposta de permanente manifesto do cinema de seu contemporâneo, colega de Nouvelle Vague e amigo, depois inimigo, Jean-Luc Godard. 




É difícil citar apenas um filme de Pasolini para colocá-lo na série Favoritos do cinema. Não dá para começar a falar do diretor italiano sem citar pelo menos cinco filmes:

Accattone (1961)
Mamma Roma (1962)
Il vangelo secondo Matteo (1964)
Uccellacci e uccellini (em português, Gaviões e passarinhos, 1966)
Salò o le 120 giornate di Sodoma (em português, Salò ou os 120 dias de Sodoma, 1975).

Mais sobre esse grande cineasta neste link .



sábado, 11 de fevereiro de 2017

As maravilhas do cosmos: de Giordano Bruno ao buraco negro! – segundo a astrofísica



Nebulosa da Águia, também conhecida como M16,
uma das mais famosas imagens do Hubble

“Em 1584, em seu livro De l’infinito universo e mondi, o monge e filósofo italiano Giordano Bruno propôs a existência de ‘inumeráveis sóis’ e ‘inumeráveis Terras (que) giram em torno desses sóis’. Além disso, ele afirmava, baseando-se na premissa de um criador glorioso e onipotente, que cada uma dessas Terras tem habitantes vivos. Por esses e outros delitos blasfemos, Bruno foi queimado na fogueira por ordem da Igreja Católica.”

Esse é um pequeno trecho do capítulo 7 do belíssimo livro Morte no buraco negro e outros dilemas cósmicos, de Neil deGrasse Tyson (editora Planeta), que estou lendo, uma verdadeira viagem pelo conhecimento e o cosmos, e seus infinitos mistérios e maravilhas.

Por exemplo, você sabe o que é aerogel? Está lá na página 103 do livro: “substância estranha e maravilhosa” usada pela NASA na missão Stardust. A meta da Stardust era “descobrir que tipos de poeira espacial existem lá fora e coletar essas partículas sem estragá-las”. O autor então explica o que é o aerogel: “a coisa mais semelhante a um fantasma que já foi inventada. É um emaranhado seco e esponjoso de silício que consiste em 99,8% de nada. Quando uma partícula bate nesse emaranhado a velocidades hipersônicas, ela perfura seu caminho e aos poucos vem a parar, intacta”.

Vamos para um dado científico no capítulo 14, que trata da densidade das coisas: “Quando você sai da galáxia, deixa para trás quase todo o gás, poeira, estrelas, planetas e entulho. Você entra num vazio cósmico inimaginável. Vamos falar do vazio: um cubo d­e espaço intergaláctico de 200 mil quilômetros contém aproximadamente o mesmo número de átomos que o ar que preenche o volume utilizável de seu refrigerador. O cosmos não só ama o vácuo, ele é esculpido a partir dele”.

Mais à frente, num capítulo que fala sobre espectros de luz: “Uma coisa é saber que de vez em quando estrelas de alta massa explodem. As fotografias podem mostrar esse fenômeno. Mas os espectros de raio X e da luz visível dessas estrelas moribundas revelam um esconderijo de elementos pesados que enriquecem a galáxia e podem ser diretamente ligados aos elementos constituintes da vida sobre a Terra. Não só vivemos entre as estrelas, as estrelas vivem dentro de nós”. Isso é astrofísica, mas também poesia.

Outra passagem me remete diretamente a uma cena do filme Interestelar. DeGrasse Tyson afirma nas páginas 166/167 de Morte no Buraco Negro, sobre as sondas enviadas pelo homem ao espaço: “A história da descoberta humana é caracterizada pelo desejo ilimitado de estender os sentidos além de nossos limites inatos. É por meio desse desejo que abrimos novas janelas para o universo (...) as sondas espaciais controladas por computador, que podemos chamar corretamente de robôs, tornaram-se a ferramenta-padrão para a exploração espacial. Os robôs no espaço têm várias vantagens claras sobre os astronautas: são mais baratos de lançar; (...) e não são vivos em nenhum sentido tradicional da palavra, por isso não  podem ser mortos num acidente espacial”.

Eu ia discordar dessa passagem, baseando minha discordância na magnífica cena em que dr. Mann (Matt Damon), em Interestelar, percorre o planeta gelado e sem superfície e diz a Cooper: "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque não se programa o medo da morte".

Mas, no livro, logo após falar das supostas vantagens dos robôs sobre o homem, na exploração espacial, Tyson diz: “...Mas até que os computadores possam simular a curiosidade e as centelhas de insight humanas (...) os robôs continuarão sendo ferramentas projetadas para descobrir o que já esperamos encontrar”. Ao contrário do que parecia, isso acaba aproximando sua visão da abordagem do filme dirigido por Chris Nolan, cuja visão sobre o cosmos é claramente antropocêntrica, já que, em Interestelar, o homem é destinado a explorar e talvez conquistar um universo cujo único habitante civilizado e inteligente é (aparentemente) ele mesmo.

Aqui poderíamos voltar a Giordano Bruno (1548-1600) e fazer a analogia com nós mesmos (conosco, para usar um português mais culto, mas obsoleto), para dizer que, em nossa ignorância, talvez façamos hoje o papel que a Igreja Católica fazia no século XVI: acusamos de “hereges” (mas hereges científicos), hoje, os que acreditam em civilizações inteligentes extraterrestres, como os católicos acusavam Giordano Bruno de herege há quatro séculos. Assim é.

Finalizo citando o belíssimo capítulo 22 do livro Morte no Buraco Negro, no qual DeGrasse Tyson discorre sobre... É até difícil falar, porque é uma das coisas mais bonitas que já li. Trata da evolução das reações nucleares das estrelas primordiais: do hidrogênio, que se se funde em hélio, depois em carbono (fundamental à vida), depois em nitrogênio, oxigênio, sódio, magnésio, silício... até o ferro. “À exceção do hélio, que é quimicamente inerte, esses elementos são os principais elementos da vida assim como a conhecemos. Dada a variedade espantosa de moléculas que esses átomos podem formar, com eles próprios e com outros, é provável que eles sejam também os ingredientes da vida assim com não a conhecemos.”

Neil DeGrasse Tyson é um astrofísico conhecido por sua inserção na mídia. Ele apresentou a série de documentário Cosmos, um remake da série original criada por Carl Sagan nos anos 1980.

Carl Sagan, além de tudo o que é, é um personagem intimamente ligado à chamada mensagem de Arecibo. Pesquisem na internet, e vocês acharão informações interessantes.

Seja como for, na minha modesta e humilde opinião, nós não estamos sozinhos.

Leia também:

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

Um pouco mais sobre Interestelar

sábado, 14 de janeiro de 2017

Um pouco mais sobre Interestelar



Cooper (Matthew McConaughey) com dra Brand (Anne Hathaway )

Depois de rever Interestelar, confesso ser necessário escrever um segundo post sobre este belo filme, que é um dos que hoje eu colocaria entre os dez de uma lista de DVDs que levaria a uma ilha deserta (onde tivesse como reproduzir, é claro), para fugir da solidão.

Também minha crítica ao diretor Chris Nolan foi talvez um pouco exagerada. Meu amigo Emerson Lopes esclareceu, via Facebook, que Nolan já declarou que Interestelar foi uma singela homenagem a 2001, de Kubrick. Humildade faz bem. É evidente que minha ranzinzice do primeiro post não tem a capacidade de diminuir o trabalho de Nolan como diretor do filme.

O fato é que Interestelar emociona.

O som como que primevo a perpassar o filme; o som metafísico quando aparece a nave Endurance; o som que marca o tempo no planeta de Miller, som de relógio que dá uma carga de dramaticidade extrema à cena (uma das mais espetaculares do filme) naquele planeta de água onde cada hora equivale a sete anos terrestres  e onde a gravidade é 130% a da terra.

A discussão sobre o tempo. A impossibilidade de mudar o passado.

O diálogo do astronauta Cooper (Matthew McConaughey) com a filha Murph (Mackenzie Foy): "Só estamos aqui como lembrança dos filhos... Quando você tem filhos, você se torna fantasma do futuro deles", diz ele à filha inconformada pela partida do pai para uma jornada talvez sem retorno.

A sequência da partida de Cooper, da fazenda para o espaço.

A sequência do relógio quando Murph entende o código binário.

Achados. Como Cooper, na varanda de sua fazenda com o sogro Donald (John Lithgow), em cena que depois se repete quase exatamente, mas num contexto em que seu interlocutor já não é humano, mas um robô.

O desespero para comunicar à filha Murph os dados quânticos em alguma região da quinta dimensão.

A busca humana por sua perpetuação diante de um cenário de morte em que a Terra está se extinguindo ("A humanidade nasceu na terra mas não está destinada a morrer aqui").

No post anterior eu critiquei o fato de o filme necessitar de um vilão. Mas até isso é justificável, já que uma pessoa na situação de dr. Mann (hibernando num tanque em um planeta onde a vida é impossível) facilmente enlouqueceria, mesmo sendo um genial cientista. Aliás, a interpretação de Matt Damon é magistral. Até mesmo dentro de um capacete sua expressividade é impressionante. "Máquinas não funcionam bem (numa missão a outro mundo) porque não se programa o medo da morte", diz ele a Cooper enquanto exploram o planeta gelado e morto.

As interpretações dos atores, até mesmo de Anne Hathaway como dra. Brand (mea culpa), que se não é nenhuma Meryl Streep, pelo menos tem uma atuação discreta. No post anterior creio que fui um pouco inclemente na minha crítica com a atriz.

Três atrizes interpretam a filha de Cooper e cientista Murph. Mackenzie Foy (na infância), Jessica Chastain (juventude e fase adulta) e Ellen Burstyn (na velhice). Três belas interpretações. Isso para não falar de Michael Caine como dr. Brand, pai da astronauta.

Os robôs TARS e CASE, que podem ser programados para ter senso de humor e graus de sinceridade, que parecem aranhas geométricas inteligentes e desempenham papel importante como personagens.

A fotografia deslumbrante do filme, combinada à música.

O conteúdo científico e a onipresente Teoria da Relatividade Geral, de Einstein, assim como outros conceitos, entre os quais do "buraco de minhoca", e elementos cósmicos como o buraco negro.Li alguns textos idiotas na "grande mídia" que procuravam defeitos científicos no filme. Todos textos rasos e estúpidos, escritos por gente que não conhece nada de ciência. (A má-fé e/ou ignorância da mídia não tem a ver apenas com a política.) 

Li também um tal crítico num blog falando mal do filme por sua "inconsistência tonal". Provavelmente um acadêmico mal humorado com problemas no fígado que quer aparecer em cima de algo infinitamente maior do que ele. Deve adorar Gritos e Susurros de Bergman.

***

Leia também: Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood

sábado, 3 de dezembro de 2016

Interestelar: ficção inteligente, apesar de Hollywood



Anne Hathaway: cenas espetaculares, atuação medíocre

Sou apaixonado por filmes de ficção científica. Infelizmente, são poucos os que se salvam. Dos que vi, 2001: Uma Odisseia no Espaço (direção de Stanley Kubrick de 1968 - baseado no livro de Arthur Clarke), é o melhor. Não à toa, já que Kubrick é um gênio que soube usar as benesses de Hollywood para fazer uma obra definitiva no cinema. Blade Runner (Ridley Scott - 1982) é outro. E podemos pôr um etcétera aí.

Mas quero falar, brevemente, do filme Interestelar (no original, Interstellar), de 2014, dirigido pelo obscuro Christopher Nolan, o tipo de diretor que não faz diferença, já que, se não fosse ele, outro faria a mesma coisa -- mais ou menos melhor ou pior.

Mas o filme, como resultado, é interessante e inteligente, descontando os hollywoodianismos (a tendência ao happy end, a necessidade do vilão, da luta física etc.).

Interestelar traz à ficção científica no cinema abordagens que a ciência dominante, a ciência canônica, não considerava comprováveis há apenas algumas décadas, como o buraco de minhoca, que em inglês é wormhole (este termo, na legenda do canal HBO, não é traduzido - o termo inglês worm significa mais "verme" do que "minhoca"). O buraco de minhoca continua sendo uma teoria contestada, mas já é considerada mais do que mera teoria. Outro conceito abordado pelo filme é o do buraco negro.

De fato emociona a maneira como o filme mostra o passado como uma dimensão irrecuperável, inclusive considerando Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade. Não há na física a possibilidade de você mudar o passado. O filme Interestelar joga fora abordagens tolas como a do filme De Volta para o Futuro (filme fascinante, mas tolo, do ponto de vista da Física). 

Interestelar é um filme antropocêntrico, como a visão do cientista Marcelo Gleiser, por exemplo. Ou seja, incorpora a concepção de que o ser humano é a única entidade comprovadamente (mas comprovada pelo homem) inteligente do cosmos e está destinado a povoar o universo. É  uma tese hoje contestada. Há setores na Ciência que discordam de que o ser humano seja o único inteligente no cosmos. O problema é que não há provas de que não estamos sós. Mas há muitas indicações de que está prestes a ser comprovado que não, nós não somos os únicos: o ceticismo de Marcelo Gleiser está ultrapassado.

Para finalizar, a produção de Interestelar resolveu muito mal o papel da astronauta dra. Brand, interpretada pela péssima Anne Hathaway, que mais parece uma coelhinha da Playboy do que uma cientista ou uma astronauta. Mesmo assim, ela protagoniza cenas espetaculares, como quando a missão da Nasa chega a um planeta estranho coberto por água, e os astronautas são surpreendidos por... Mas não vou contar.

Já o galã Matthew McConaughey, como o astronauta Cooper, foi uma aposta vencedora. Está muito bem no papel do comandante da missão destinada a encontrar um destino para a espécie humana para além de nossa galáxia. De resto, o desempenho de Jessica Chastain (no papel de Murph como filha adulta de Cooper) é muito superior ao da medíocre Anne Hathaway como a protagonista dra. Brand. No filme, o excelente Michael Caine faz o pai da dra. Brand.

Infelizmente, como é Hollywood, os pecados se sucedem. Por exemplo: o filme tem um elenco estelar, com o perdão do trocadilho. Além de Michael Caine, traz como coadjuvante Matt Damon, uma real estrela da nova geração de Hollywood (junto, por exemplo, com Leonardo DiCaprio). Um luxo, ter Matt Damon como coadjuvante. Só que, ao invés de aproveitar o personagem de Matt Damon, a produção-direção, na minha modesta opinião, desperdiça a chance. Porque Hollywood precisa de heróis e vilões, precisa do bem e do mal, e jogam fora o luxo de ter o ator em seu elenco.

Seja como for, Interestelar é um filme bastante interessante. Merece ser visto. Assista.

***

Leia mais: Um pouco mais sobre Interestelar