Ou: eu também Não sou Charlie
Após o ato terrorista que vitimou o jornal Charlie Hebdo, naturalmente muitos se apressaram para externar suas opiniões. Depois do horror do ato terrorista justificadamente repudiado por qualquer pessoa que tenha um mínimo apreço ao humanismo, à paz ou ao simples bom senso, logo surgiram as tolices que se seguem a acontecimentos desse tipo.
A primeira tolice foi aquela segundo a qual o atentado
agredia a "liberdade de expressão", a "liberdade de imprensa" de todos nós. A
segunda, entre as que li (e essa é mais tola de todas), foi aquela que dizia
que a “extrema esquerda” tinha sido a verdadeira vítima dos terroristas. E a
terceira tolice é essa que se resume no slogan “Je suis Charlie”, que rivaliza
com a segunda em ingenuidade, mas vai muito além.
A primeira tolice não é exatamente uma tolice (é tolice
apenas quando reproduzida por papagaios que sequer sabem seu sentido), já que,
como se sabe, a liberdade de imprensa de que falam é a liberdade das grandes corporações
midiáticas ocidentais, cuja cartilha prega a democracia dos patrões, do
capitalismo sem freios, da selvageria denuncista praticada, entre nós
brasileiros, por exemplo, pela meia dúzia de famílias donas das comunicações, enfim,
a liberdade de imprensa da mentira travestida de jornalismo.
A segunda tolice nem sequer merece comentários. Dizer que a
extrema esquerda foi a vítima do atentado é de tal ordem tolo que vou poupar o
leitor mais inteligente de ler algumas linhas inúteis.
E a terceira tolice, segundo a qual “Je suis Charlie”,
rivaliza com a segunda, mas é mais sofisticada, pois remete a uma solidariedade
humanista e de certa maneira incorpora subliminarmente o clamor pela liberdade
de expressão, ou de imprensa (ocidental).
Percebo que, quando digo “tolice”, na verdade me refiro aos
que reproduzem esses raciocínios e não refletem direito sobre o que estão
reproduzindo, já que evidentemente aqueles que os criam ou os consensos em
torno dos quais esses raciocínios se formam não são exatamente tolos ou desprovidos de intenções.
Quando um monte de amigos verdadeiramente bem intencionados dão pra repetir “Je
suis Charlie”, “Je suis Charlie”, “Je suis Charlie”, provavelmente nem estão
pensando no significado do que dizem. Por exemplo, no fato de que o Charlie
Hebdo talvez tenha ido longe demais em sua política editorial de desrespeitar as
religiões e a fé.
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"O Corão é uma merda", diz Charlie Hebdo: humor? |
Em resumo, o blog citado chama a atenção para o fato de que
o Charlie Hebdo (intencionalmente ou não – nota deste Fatos Etc.) insuflou incessantemente
o preconceito e a já denominada “islamofobia”, o racismo e a violência contra a
perseguida cultura islâmica, que na Europa, e principalmente na França, aumenta
mais e mais, e incentivou também os discursos da extrema direita francesa. Basta se informar um pouco para saber o quanto o Estado francês tem acuado a cultura muçulmana na terra de Napoleão
Bonaparte.
Quando o Charlie Hebdo estampa, numa capa, a frase "O Corão é uma merda", está fazendo humor? Não, está desferindo um ataque que nada tem a ver com humor.
Em entrevista à Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (9), Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, partido francês de extrema direita, disse: “O islamismo, esse totalitarismo religioso que mata todo dia centenas de inocentes no mundo, declarou guerra ao nosso país. Devemos responder sem fraquejar”.
Esse discurso insidioso quer confundir o islamismo (uma religião monoteísta surgida na Arábia no século VII, tão importante quanto o cristianismo e o judaísmo) com os fundamentalistas que, infelizmente, são talvez os maiores inimigos da religião em nome da qual matam e massacram.
Quando o Charlie Hebdo estampa, numa capa, a frase "O Corão é uma merda", está fazendo humor? Não, está desferindo um ataque que nada tem a ver com humor.
Em entrevista à Folha de S. Paulo nesta sexta-feira (9), Marine Le Pen, presidente da Frente Nacional, partido francês de extrema direita, disse: “O islamismo, esse totalitarismo religioso que mata todo dia centenas de inocentes no mundo, declarou guerra ao nosso país. Devemos responder sem fraquejar”.
Esse discurso insidioso quer confundir o islamismo (uma religião monoteísta surgida na Arábia no século VII, tão importante quanto o cristianismo e o judaísmo) com os fundamentalistas que, infelizmente, são talvez os maiores inimigos da religião em nome da qual matam e massacram.
Aproveitando a estupidez e violência canalha dos inimigos autoproclamados
mártires de Alá que, na verdade, trabalham para a causa sionista, Marine Le Pen
disse mais: “Os franceses, a partir das manifestações espontâneas que emergiram
após o atentado, tomaram consciência dessa declaração de guerra”. E ainda: “Diante
do terrorismo islâmico, temos que nos defender com todos os meios possíveis.
Acredito que nossos compatriotas entendem isso”.
Por tudo isso, embora solidário com todos aqueles ligados ao
Charlie Hebdo que sofreram e sofrem com a insanidade do ataque, mas principalmente
como defensor da liberdade e autodeterminação dos povos, do Estado da Palestina
(e também, como o governo do Brasil, talvez ingenuamente, da convivência pacífica
da Palestina com o Estado de Israel), como defensor da paz, declaro que também Não
sou Charlie, como o blog acima citado defende, e você pode ler abaixo.
6 comentários:
Excelente análise. Fico muito feliz que meu texto tenha lhe auxiliado nessa reflexão.
Assino embaixo. Pego por exemplo aqui: pregam a liberdade de imprensa. Muitos jornalistas dizem que tem essa liberdade. Tem, mas desde que não fale nada que desagrade o dono da empresa.
É a chamada liberdade de impren$a, que tem essa conotação financeira e também é fortemente ideológica, uma vez que, no nosso caso brasileiro, por exemplo, assume o papel de oposição política que a própria oposição não consegue, por incompetência (vide eleição de 2014).
Muita liberdade também tem seu preço. De imprensa ou de expressão. Liberdade pode não ter limites, mas consequentemente pode ter um preço. Ou não?
Essa é uma discussão que poderia levar uma noite inteira, ou mais...
Ótimo post. Eu não sabia desse "O Corão é uma merda". Se for verdade o que ouvi na GloboNews, que 10% da população francesa é muçulmana, o ocorrido no dia 7 de janeiro é muito mais significativo do que imaginamos, pois então se trata de um grande centro europeu ocidental de fé islâmica que proibiu, há alguns anos, o uso da burca em escolas e locais públicos. Isso seria outra prova de que a revista não queria apenas brincar com seus leitores, e essa lei francesa certamente fere o princípio de liberdade religiosa e de imprensa que o Ocidente prega muitas vezes sob as regras da Otan, quer dizer, na marra mesmo. Mas como disse o Edu num comentário, a discussão dá pano pras mangas.
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