domingo, 8 de abril de 2012

Futebol: os campeonatos estaduais não têm mais sentido como são atualmente


Após a 18ª rodada da fase de classificação do desanimador e chato Campeonato Paulista deste ano, os 8 classificados já estão definidos. Desde a semana passada, aliás. Corinthians e São Paulo disputam a liderança. Independentemente da 19ª e última rodada, é certo que nas quartas-de-final um jogo será Timão versus Bragantino ou Ponte Preta, e o outro será, inversamente, Tricolor versus Ponte Preta ou Bragantino. Como o Santos deve bater a já rebaixada Catanduvense na Vila na rodada final e ficar com o 3° lugar, pegará o sexto colocado, que poderá ser Guarani, Palmeiras ou Mogi Mirim. O duelo entre o quarto e o quinto colocados é ainda indefinido.

Foto: Wander Roberto/ Vipcomm
Na fase de classificação, Corinthians 1 x 0 São Paulo no Pacaembu.
Timão e Tricolor lideram o estadual na penúltima rodada

É preciso reconhecer que os campeonatos estaduais se esgotaram. E digo isso com toda tranqüilidade, já que sempre os defendi. Mas o Paulistão de 2012, o carioca, o mineiro, o gaúcho, o baiano e todos os outros são hoje um completo fracasso.

Como sou paulista, vou me deter no campeonato daqui. Bom seria se a Federação Paulista de Futebol tivesse coragem de fazer um estadual mais enxuto, para ser o que é realmente: uma pré-temporada. Digamos com 16 times. Querem manter a fórmula atual? Pode-se mantê-la: todos contra todos em turno único, somando no total 15 rodadas. E depois mata-matas com os quatro melhores times nas semifinais.

Semifinais:

1° contra o 4°
2° contra o 3°

... em jogos únicos num fim de semana, com mando e vantagem do empate para o 1° e o 2°. Na final, a mesma coisa, em um jogo só, no fim de semana seguinte. Pronto, racionalmente o Campeonato Paulista ocuparia 17 datas, enquanto hoje ocupa 23. Com seis datas a menos (e não é pouco), os clubes que estão na Copa do Brasil e Libertadores teriam mais fôlego. Por que não? Os estaduais não podem continuar ocupando tanto calendário; como estão, não têm mais razão de existir.

Paralelamente, os times da segunda divisão estadual disputariam uma competição bem organizada durante a temporada, com o objetivo de manter o futebol do interior do Estado em atividade e vivo (se é que já não é tarde demais), classificando dois times para a Série A (contra dois rebaixados) e com algum critério para classificar outros à Copa do Brasil.

Lá vem a Lusa, descendo a ladeira

Lusa ficou no 2 a 2 com Linense
A nota melancólica é a Portuguesa, que subiu para a série A do Brasileiro com tanta autoridade, mas já no estadual demonstra que é um dos principais candidatos a mais uma vez cair para a segunda divisão do Brasileirão em 2012: no fraquíssimo Campeonato Paulista deste ano, a Lusa ocupa uma lamentável 15ª posição. No sábado de Aleluia, a equipe Rubro-verde ficou no 2 a 2 com o Linense no Canindé, com 1.181 testemunhas no estádio, e renda de R$ 22.700,00.

Comercial e Catanduvense já caíram. O Guaratinguetá está virtualmente rebaixado. A última vaga para o degredo está entre Portuguesa, XV de Piracicaba e Botafogo de Ribeirão Preto.

Principais resultados da 18ª e penúltima rodada (7 e 8 de abril de 2012) ) da fase de classificação do Paulistão 2012

São Paulo 2 x 0 Mogi Mirim
Portuguesa 2 x 2 Linense
Guarani 3 x 1 Palmeiras
Corinthians 1 x 0 Paulista
São Caetano 2 x 1 Santos

sábado, 7 de abril de 2012

Fato da semana – Dilma avisa que "fantasia não tem espaço" nas discussões da Rio + 20


Marcante a fala da presidente Dilma Rousseff sobre o tema desenvolvimento e meio ambiente, no encontro do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, no Palácio do Planalto, dia 4.





Trata-se da posição do Brasil sobre as questões a ser debatidas na Rio + 20, que acontece no Rio de Janeiro em junho. Dilma foi categórica: “ninguém numa conferência dessa também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Ela não tem espaço, a fantasia. Eu não tô falando da utopia, essa daí pode ter [espaço]. Tô falando da fantasia. Eu tenho de explicar pras pessoas como elas vão comer, como vão ter acesso à água, como vão ter acesso à energia”.
O que está em jogo é, por exemplo, a construção de usinas hidrelétricas na Amazônia, muito criticada por grupos ambientalistas. A fala do dia 4 é uma resposta clara da presidente a esses grupos.

“Nós vamos ter de ser capazes de fazer essa junção: a junção entre o econômico, o social e o ambiental”, afirma Dilma. Embora nesta frase tente ser diplomática (e nesse ponto ela não se parece com o ex-presidente Lula, conciliador e negociador por excelência), de modo geral a presidente é contundente na defesa de sua visão desenvolvimentista, pragmática e racionalista. Cartesiana, eu diria. Concorde-se ou não, é a posição do governo, e Dilma avisa para quem quiser ouvir: as hidrelétricas na Amazônia vão ser construídas.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Receitas simples [01]: arroz integral, feijão, filé de pescada frita, salada de rúcula e farinha de milho


Minha mãe falava que o mais difícil não é cozinhar, mas ter ideia do que fazer. Este post inaugura uma série com sugestões para quem precisa de ideias e não tem tempo de fazer receitas complexas.

Este prato simples é o seguinte: arroz integral, feijão, filé de pescada frita, salada de rúcula e farinha de milho.

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Peixe: tempere quatro ou seis filés com sal a gosto (de preferência pouco), salsinha e limão. Se quiser, acrescente um pouco de shoyu, mas pouco mesmo para o sabor do shoyu não prevalecer sobre o do peixe. Deixe descansar por uma hora mais ou menos para o tempero “pegar”. Passe na farinha de trigo e frite (só na hora de comer, depois de tudo pronto) com óleo de girassol.

Arroz: do modo tradicional. Frite meia cebola até dourar. Coloque o arroz integral depois de lavar, frite por um minuto e coloque água fria. Coloque sal e mexa. Há vários tipos de arroz integral, alguns mais moles, outros mais duros. A quantidade de água depende do tipo do arroz. Geralmente, são três ou 2,5 xícaras de água para cada xícara de arroz integral.

Feijão: cozinhe 500g de feijão carioquinha por meia hora na panela de pressão. Se não estiver cozido depois disso, cozinhe por mais dez minutos. Para temperar, frite dois ou três dentes de alho grandes picados até dourar. Em seguida, coloque meio ou um tomate italiano picado, frite junto com o alho por um minuto e em seguida coloque duas conchas de feijão. Amasse esse feijão para que o caldo fique grosso. Depois de amassar, coloque o resto do feijão, ponha sal a gosto e deixe cozinhar em fogo baixo até que o caldo engrosse, tomando cuidado para não secar (se preciso, vá acrescentando água aos poucos com cuidado para não aguar).

Observação: Para fritar a cebola do arroz e o alho do feijão, ou qualquer outra coisa, não use óleo de soja, mas de girassol, que é mais saudável e não tem o gosto forte do outro.

A rúcula só precisa ser lavada e temperada com limão (ou vinagre), sal e azeite.

Se não tiver tempo de fazer uma farofa, só a farinha de milho pura já dá um toque ao prato.


Com abrotéa ao forno

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A receita acima pode ganhar um reforço: abrotéa ao forno (à esquerda no prato acima). Esse peixe é erradamente chamado de “bacalhau fresco”. Não é bacalhau (é pescado no sul do Brasil), mas tem um sabor semelhante e é muito gostoso. Estamos na época deste peixe, facilmente encontrado nas feiras livres.

Tempere a abrotéa previamente (no mínimo uma hora antes de assar, mas de preferência horas antes) com sal a gosto, bastante salsinha, limão e um pouco de shoyu. Recheie o peixe com um ou dois tomates italianos picados e prenda com palitos de dente. Há muitas formas de temperar um peixe, mas, quando você precisa economizar tempo, com um tempero simples fica muito bom. Coloque azeite numa forma de vidro, o peixe e jogue mais azeite no peixe. Leve ao forno por meia hora em fogo médio ou o tempo suficiente para dourar sem secar. Cheque sempre, enquanto estiver assando, para não deixar secar (eu não gosto de peixe muito assado, pois ele perde o sabor).

quinta-feira, 5 de abril de 2012

No melhor jogo de 2012, Inter e Santos
ficam no 1 a 1 em Porto Alegre pela Libertadores


Apesar do estilo gaúcho – e talvez até por isso – Internacional e Santos no Beira Rio pela Libertadores nesta quarta-feira foi o melhor jogo do futebol brasileiro que vi em 2012. O resultado de 1 a 1 deve ser creditado ao goleiro colorado, Muriel, que salvou seu time de deixar a cancha derrotado em seu próprio quintal. No duelo entre a raça gaúcha e o futebol arte, deu empate. Mas no “agregado” deu Santos, já que no jogo de ida, na Vila, os gaúchos tomaram um chocolate: 3 a 1 e show de Neymar.

Divulgação/ Santos FC

O estilo gaúcho se fez presente desde o primeiro minuto de jogo: pegada forte, marcação ao estilo rúgbi, pressão no campo de ataque, catimba, porrada. Arte versus porrada. E o Inter fez 1 a 0 numa cobrança de falta espetacular do lateral Nei (observação: a falta que deu origem ao gol não existiu – o manhoso ex-são-paulino Dagoberto cavou de maneira até tosca, mas o árbitro deu).

Acontece que sem Guiñazu, D’Alessandro e Oscar, o meio de campo colorado pouco produziu. E Leandro Damião (um centroavante do tipo tanque, que acho superestimado) ficou órfão. Porém, apesar de aguerrido e ótimo no desarme, Arouca compensou os desfalques do time da casa comprometendo o meio de campo peixeiro com freqüentes erros de passe. Justamente num desses erros de Arouca saiu a falta que redundou no gol do Inter. Acho muito volante (Henrique, Arouca e Íbson) pra um Santos só, mas, enfim, é assim que joga Muricy Ramalho.

Em aguerrimento, Tinga fez sua parte do lado colorado. Mas, como Arouca, é tecnicamente limitado e às vezes resolve no desarme para devolver na hora de passar. Como no meio de campo alvinegro Íbson é do tipo que “nem fode nem sai de cima”, um jogador que brilha em jogos secundários mas nos principais se apaga, o Santos demorou a dominar a partida, o que só conseguiu no segundo tempo.

Ganso, muito marcado, pouco produziu. O (em 2012) lamentável Borges só está aí para comprovar a teimosia de Muricy: outra vez, Alan Kardec, que surpreendentemente entrou no lugar do lento e decepcionante lateral Fucile, fez em poucos minutos o que o molenga Borges não conseguiu em todo o jogo.

Melhores momentos do jogo



Muriel, Neymar e Dracena

Tirando o milagroso goleiro Muriel, goleiro com nome de anjo, Neymar foi o nome do jogo, fazendo o de sempre: apavorou a defesa adversária, apanhou, obrigou Muriel a várias defesas e um milagre, e conseguiu que o time oponente fosse punido com três cartões amarelos e uma expulsão (de Rodrigo Moledo). O time de Dorival Júnior, aliás, poderia ter levado cartão vermelho bem antes, ainda no primeiro tempo (o lateral Nei). O capitão santista Edu Dracena foi um gigante na zaga. Só não ganha o “Moto-Rádio” porque Muriel e Neymar jogaram muito.

Na segunda etapa, dominada completamente pelo Santos, o Colorado só não teve mais expulsos porque o árbitro Sandro Meira Ricci – que só não foi perfeito porque tolerou a violência – foi político. O futebol gaúcho (de Inter ou Grêmio) é muito, mas muito feio, e é incrível que haja quem goste.

O Peixe lidera o grupo 1 da Libertadores com dez pontos. Se por azar do Inter o fraquíssimo boliviano The Strongest (com 7) bater o péssimo Juan Aurich (que tem zero) nesta quinta-feira, 5, no Peru, somará dez pontos e o Colorado (8 pontos) precisará vencer o Aurich fora de casa, na última rodada, no carpete, para não ser desclassificado na fase de grupos.

Só São Judas salva o Flamengo no grupo 2

Com a derrota para o Emelec do Equador em Guyaquil, o time da Gávea é o lanterna do grupo 2, com 5 pontos. Na última rodada (12 de abril), o time de Joel Santana pega o bom argentino Lanús (líder com 10 pontos) no Rio, enquanto o vice Olímpia (7 pontos) recebe o Emelec (6). Ou seja, o Flamengo está virtualmente fora, a não ser que seu padroeiro, São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis, venha em seu socorro.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Popularidade de Dilma sobe e supera FHC e Lula no mesmo período de seus governos


A popularidade da presidente Dilma Rousseff subiu cinco pontos percentuais. Sua aprovação pessoal (ótimo e bom) foi de 72%, em dezembro passado, para 77% em março de 2012, segundo pesquisa Confederação Nacional da Indústria (CNI)/ Ibope divulgada nesta quarta-feira, 4. Dos entrevistados, 12% desaprovaram a presidente e 14% não responderam.

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

No mesmo período de seu primeiro mandato, o ex-presidente Lula tinha 54% de aprovação pessoal. Fernando Henrique Cardoso contava com 60%. Além disso, Dilma chega à aprovação mais alta desde que assumiu a presidência.

O percentual de pessoas que confiam em Dilma Rousseff subiu de 68% para 72%, no mesmo período. E a parcela da população que considera o governo ótimo ou bom manteve-se estável em 56%.

As áreas mais mal avaliadas foram impostos (65% de desaprovação), saúde (63%) e segurança pública (61%). E 60% dos entrevistados consideram o governo Dilma igual ao do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Note-se que duas áreas importantes (cultura e meio ambiente), que têm sido passíveis de críticas justas da comunidade cultural e de ecologistas, não aparecem entre as campeãs de insatisfação. É claro, são áreas que não têm apelo das massas, infelizmente, o que não colabora para que sejam gerenciadas como se espera de um governo popular.

A pesquisa da CNI/Ibope ouviu 2002 pessoas em 142 municípios entre 16 e 19 de março. A margem de erro é 2 pontos percentuais.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Com arbitragem caseira, Barcelona bate o Milan e vai às semifinais da Champions League


Vitória do Barcelona sobre o Milan por 3 a 1 no Camp Nou. Porém, o triunfo catalão esteve longe de mostrar o decantado brilho que a imprensa tupiniquim adora enaltecer. Primeiro porque enfrentar o Milan com sua tradição é sempre parada dura, embora o time italiano esteja visivelmente envelhecido e precisando de renovação (Seedorf, por exemplo, é uma pálida sombra do que já foi). Em segundo lugar, porque o “maravilhoso” Barcelona precisou de uma arbitragem claramente caseira do holandês Björn Kuipers para impor o placar.

No começo, a impressão é de que o Barcelona estava o tempo todo na iminência de fazer um gol. Mesmo assim, foi com dois pênaltis que anotou os dois primeiros tentos, cometidos por Antonini em Messi (de modo grotesco, pois a bola já estava dominada pela defesa, que a devolveu ao argentino) e pelo experiente Nesta, de 35 anos, que puxando Busquets pela camisa deu uma de italiano autêntico e ofereceu de bandeja o 2 a 1 aos espanhóis apenas nove minutos após o empate milanista. Mas esse segundo pênalti é o tipo de lance que ocorre às dezenas, e que de vez em quando um árbitro apita. Teria apitado se fosse a favor do Milan, na casa do Barcelona? Creio que não.

Gols do jogo (deixe em mute, pra evitar ouvir o Paulo Andrade*)


Na primeira etapa, que terminou 2 a 1, a péssima atuação do holandês Seedorf no meio campo do Milan – com inúmeros passes errados – comprometeu sobremaneira a ligação com o ataque. Mesmo assim, a defesa catalã não demonstrou muita segurança. Em ótima jogada, Robinho venceu dois marcadores e passou a Ibrahimovic, que mandou para Nocerino tocar com categoria na saída de Víctor Valdés.

Logo no início do segundo tempo, o milanista Ibrahimovic sofreu uma falta dentro da área muito parecida com o penal sofrido por Messi que redundou no primeiro gol do jogo. Mas desta vez o juiz holandês preferiu, na dúvida, beneficiar a defesa, ao contrário do lance do primeiro tempo.

Antes que o Milan, que começou bem a segunda etapa, conseguisse o 2 a 2 que lhe daria a classificação, o Barcelona achou um gol. Messi tentou chutar, mas bateu mascado na bola, que, porém, rebateu e foi cair no pé de Iniesta, livre na frente de Abbiati: 3 a 1. Quando a fase é boa, até a sorte comparece para ajudar. Com esse golzinho mequetrefe e arbitragem caseira, o grande Barcelona vai à semifinal, e deve pegar o Chelsea. Se passar pelo time londrino, fará a final provavelmente contra Real Madrid ou Bayern de Munique.

Como a final será em Munique, torcerei ardentemente para o Bayern chegar à final. Jogando em casa, os bávaros serão uma parada indigesta para o Barcelona amado, que eu quero que vá para o raio que o parta, para não dizer outra coisa.

Melancólica a fase de Alexandre Pato. Ele entrou no segundo tempo no lugar de Boateng,ficou 13 minutos em campo e saiu, novamente lesionado.

*PS: Vi Barcelona 3 x 1 Milan na Band, com Téo José e Mauro Betting, uma transmissão mais parecida com as de antigamente. Na Globo, com Galvão Bueno, impensável assistir. Na ESPN, com o horroroso Paulo Andrade na narração, só mesmo se não tivesse outra alternativa. Alguém algum dia contou ao Paulo Andrade que ele era narrador e ele acreditou. E o pior é que há quem aposte nele, para desgraça dos ouvidos alheios.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Cultura: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil


No governo Dilma, a Cultura, assim como Meio Ambiente, é uma pasta sem importância. Há um ano, já estava claro que a política de Ana de Hollanda só interessa ao governo e à indústria cultural americanos. Mas isso pode custar caro em 2014

Agência Brasil
Muito bom, muito bem. Chegamos a abril de 2012, passamos o Dia da Mentira e, ao contrário de apostas e até “furos” jornalísticos dando conta de que ela cairia “antes do fim do mês” de março, a ministra Ana de Hollanda continua firme e forte na pasta da Cultura. “Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, não deve chegar ao fim do mês [de março]”, garantiu o jornalista João Villaverde, do Valor Econômico, em seu twitter, dia 13 do mês passado, conforme postado aqui.

A resistência da irmã de Chico Buarque no Minc – que já parece ter virado um escárnio para com a comunidade cultural que trabalhou muito pela eleição de Dilma Rousseff – é motivada por enormes interesses que vêm lá do Norte da América e está muito longe de ser simples. E por isso ela não cai. A melhor explicação para sua permanência contra tudo e contra (quase) todos está numa matéria de Tatiana de Mello Dias e Rafael Cabral em O Estado de S. Paulo de 20 de março de 2011. Ou seja, de mais de um ano atrás! A matéria, intitulada "Quem tem medo da mudança?" e já citada à época neste blog, dizia o seguinte:

“O Secretário de Comércio dos EUA, Gary Locke, se reuniu na sexta-feira passada, 18 [de março de 2011], com a ministra da Cultura, Ana de Hollanda. O pedido, em forma de ‘visita de cortesia’, partiu do governo americano e tinha como pauta um tema quente para o Ministério no começo de 2011: propriedade intelectual.”

A reforma da lei de direitos autorais, que o ex-ministro Juca Ferreira tentou fazer andar, não interessa aos Estados Unidos. Continuava a matéria acima citada: “Tem sido feita muita pressão para que o Brasil adote uma linha mais amigável aos interesses dos EUA e para que siga suas recomendações em relação aos direitos autorais. A escolha de Ana de Hollanda e suas primeiras ações [no início do governo Dilma] a esse respeito refletem isso”, afirma o sociólogo Joe Karaganis, pesquisador do Social Science Research Council que chefiou um estudo de três anos sobre a pirataria em países emergentes.

Com a democratização da lei de direitos autorais, “o Brasil poderia começar a sofrer retaliações comerciais”, continuava a reportagem do Estadão de março de 2011. E, finalmente, “‘As ações da ministra apontam basicamente para a realização da agenda da indústria cultural’, afirma Pablo Ortellado, do Grupo de Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP”.


Obama e Gary Locke, o secretário de Comércio
dos EUA. O verdadeiro chefe de Ana de Hollanda?
É simples assim, meus amigos. A manutenção de Ana de Hollanda se deve antes e acima de tudo a interesses de governo (ou melhor, governos: americano e brasileiro). Diante desse quadro, uma eventual queda de Ana Hollanda e sua substituição, caso aconteça, seria apenas uma medida cosmética para amansar a comunidade cultural do país. Não representaria mudança de fundo alguma na política do Minc atualmente em vigor, de que favorcimentos ao Ecad e a desarticulação dos pontos de cultura, projeto importante que passou a ser vítima de boicote e cortes orçamentários, são alguns dos principais problemas.

Ironicamente, na campanha de 2010, artistas de várias vertentes se empenharam na campanha de Dilma sob o seguinte slogan: “Cultura com Dilma 13 – Mais cultura para o Brasil seguir mudando” (relembre aqui). Mas a política cultural do governo Dilma tem sido encarada, lamentavelmente (com razão), como uma traição a esse apoio.

No meio ambiente, mais retrocesso

O governo parece também completamente desinteressado nas questões relativas ao Meio Ambiente (o que importa é o “desenvolvimento” a qualquer preço), a ponto de chegarmos à seguinte situação: “Organizações sociais denunciaram que o primeiro ano de mandato da presidente Dilma Rousseff se caracterizou pelo ‘maior retrocesso da agenda socioambiental desde o final da ditadura militar’, revertendo uma tendência sustentada desde 1998. A denúncia consta de um documento que será apresentado ao governo brasileiro e ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, junto com uma carta assinada por 39 organizações ecologistas”, informa matéria publicada pela Envolverde no último dia 30.

Essas traições, como dizem muitos artistas e ativistas ligados à cultura e ao meio ambiente, podem custar caro aos projetos de reeleição de Dilma em 2014. Mas a presidente não parece preocupada com essas questiúnculas, por enquanto.

A íntegra da matéria do Estadão de março de 2011: Quem tem medo da mudança?

*A frase do título deste post, "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", é de Juracy Magalhães, ministro da Justiça do Brasil entre 1965 e 1966, no governo militar de Castelo Branco.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Artistas de rua – Divino Oliveira, um músico. Avenida Paulista, São Paulo




Pensamento para sexta-feira [número 28] – a literatura russa e a culpa


Li esta semana uma pequena novela do grande Tolstói, O Diabo, e fiquei a refletir sobre a literatura russa.


Fiódor Dostoiévski
 Dois dos maiores livros que li são obras desse gigante país do Oriente: Os Irmãos Karamázov e Crime e Castigo, de Dostoiévski, que com certeza estariam em uma lista dos 30 livros que eu levaria para uma ilha deserta.

Mas em minha reflexão desses dias – e esta nota está longe de pretender ser mais do que isso mesmo: uma humilde nota – pensei o seguinte: se hipoteticamente qualquer pessoa lesse um livro por dia durante todos os dias de sua vida, ainda assim morreria conhecendo uma fração do que se produziu em literatura no mundo: um volume lido por dia ao final de 70 anos daria um total de 25.550 obras. Só a título comparativo, calcula-se que a colossal biblioteca de Alexandria, destruída pelos árabes no século VII de nossa era, tinha 700 mil livros.

E foi pensando nisso, após ler O Diabo de Tolstói, que refleti: talvez eu já tenha lido o suficiente de literatura russa em minha vida. Com 50 anos, se eu viver mais 30 acho que não terei mais tempo para me debruçar sobre uma vertente literária que, aliás, e convenhamos, após a Revolução de 1917 deixou de existir tal como aprendemos a amá-la. Reduziu-se a escritores que não sobreviveram ao stalinismo, ou se tornaram porta-vozes do ideário bolchevique, como o enfadonho Máximo Górki (1868-1936), ou saíram do país para escapar à morte ou ao silêncio, como Vladimir Nabokov (1899-1977).

De resto, digo que talvez não tenha mais tempo para a literatura russa – pelo menos não com a dedicação com que já devorei os grandiosos Alexander Púchkin, Dostoiévski, Tchekov, Tolstói e Gogol – porque há muito o que ler na infinita literatura universal. E também fiquei um pouco cansado da culpa interminável que permeia os romances e contos russos.
Liev Tolstói


O diabo e a culpa

Em O Diabo, por exemplo, uma obra menor de Tolstói (autor da pequena obra-prima A Morte de Ivan Ilitch, para não falar de Guerra e Paz, Ana Karênina e incontáveis grandes contos e novelas), um jovem homem solteiro, Evguêni, tem um caso com uma camponesa, Stepanida, com quem se encontra furtivamente em uma cabana ou nos bosques nas redondezas de sua propriedade. Depois de casado, embora ame sua mulher Liza, ele não consegue esquecer os prazeres que viveu com a camponesa e, por mais que se esforce para sufocá-lo, seu desejo por ela só aumenta. E, aprisionado por uma culpa doentia, ele passa a viver um inferno, e culpa, por sua vez, a jovem camponesa que passa a ser para ele a encarnação do diabo, daí o título.

E é disso que, a esta altura da vida, cansei nos romances, contos e novelas russos: a culpa. A literatura do país de Dostoiévski do século XIX é impregnada da culpa e de um elemento que podemos chamar de um atávico complexo de Édipo patriótico: a veneração cega pela Grande Mãe, a “mãezinha” onipresente que atormenta ou inspira seus personagens, e A Mãe, de Máximo Gorki, não é mais do que a expressão máxima desse espírito que funde mãe e nação. Talvez Lolita de Nabokov, conscientemente ou não, seja como um grito de libertação desse fantasma. Quem dirá que não?

Seja como for, ter conhecido a maravilhosa literatura da grande Rússia foi fundamental para mim. “Eu sou os livros que li”, disse Sartre. Apesar disso, não tenho mais muita paciência para tanta culpa e tanta pátria.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Papos com Millôr Fernandes


Em uma entrevista de 2001, o escritor me falou o seguinte sobre o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral: "é a pintura mais feia do mundo"


Morreu hoje, aos 88 anos, em Ipanema, Millôr Fernandes, escritor, humorista, dramaturgo, desenhista e outras coisas mais.

Quando Jorge Amado morreu, em agosto de 2001, o jornalista chileno então radicado no México Enrique Portilla me pediu uma matéria para o jornal Reforma, do México (Reforma.com), repercutindo a morte do grande escritor baiano junto a intelectuais e colegas brasileiros de literatura. A matéria ("El heroe de Bahia"), que deveria conter a opinião dessas personalidades sobre a importância da obra do autor de Gabriela, Cravo e Canela, está até hoje no site do jornal, mas infelizmente só para assinantes do impresso mexicano.

Entre outras personalidades, como Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Autran Dourado, entrevistei Millôr Fernandes para a matéria. Millôr era o tipo do cara que você podia tentar entrevistar abordando-o num evento, num lançamento de livro, se conseguisse que ele o atendesse, ou valendo-se de um amigo ou conhecido comum. Em outras circunstâncias, era impossível. Eu tinha o telefone da casa dele. Sabedor de sua fama de um homem que não dava entrevistas facilmente, muito menos por telefone (ao qual raramente atendia), liguei meio sem esperança de obter uma declaração. Mas, eis que ele atende!

– Alô?
– Millôr?

Ele disse que sim, era ele. O primeiro desafio estava vencido. Millôr atendera o telefone! O segundo, talvez mais difícil, pensei, seria conseguir as aspas para minha matéria. Fui o mais direto possível, pois uma falha, um gaguejo, um vacilo teria sido suficiente para ele me dispensar. Além de objetivo, tentei agradar seu ego:

– Millôr, sou o jornalista Eduardo Maretti. Estou fazendo uma matéria para o jornal Reforma, do México, e preciso da opinião de pessoas importantes da cultura e da literatura brasileiras sobre Jorge Amado.

Num primeiro momento ele quis recusar. Disse que gostava de A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água (1959), deixou transparecer que não era nem um pouco fã de Amado e completou dizendo que não queria julgar um autor que havia morrido e que, portanto, não lhe poderia responder. Entendi que, ao afirmar que Jorge Amado não poderia retrucar, ele não teria nada muito elogioso a dizer, e, evitando irritá-lo (e um jornalista irritá-lo não era nada difícil), usei de rodeios para tentar uma opinião mais clara.

Millôr era de uma inteligência feroz e fulminante e acho que gostou de uma interlocução que, suponho, ele entendeu que deliberadamente fazia seu jogo, e, enfim, falou algo bastante claro sobre o que pensava do escritor baiano, mas, como era de seu estilo, fugindo ao lugar-comum, por meio de uma associação com a pintora modernista Tarsila do Amaral. “Uma vez escrevi que Abaporu, o quadro de Tarsila do Amaral, é a pintura mais feia do mundo. O quadro se transformou num mito. Jorge Amado já faz parte da mitologia brasileira; não se discute. É inútil discutir”.

Enfim, tinha eu para minha matéria o depoimento de Millôr, heroicamente obtido por telefone!, irônico, metafórico, por assim dizer totalmente Millôr, e em que era cristalina sua falta de amor, digamos assim, pela obra de Jorge Amado. Ou, por outras palavras: ele não partilhava da unanimidade em torno da literatura do escritor.

Do que eu discordo, pois acho a literatura de Jorge Amado de uma grandeza inigualável na literatura brasileira.

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"A tragédia vem embutida em piadas"

No meu livro Escritores (pela editora Limiar, que reúne 43 entrevistas com autores brasileiros e internacionais organizadas a partir de material produzido para Revista Submarino, hoje extinta), tem também uma entrevista com Millôr Fernandes, obtida a fórceps pela repórter Camila Claro quando do relançamento de seu Livro Vermelho dos Pensamentos (Ed. Senac). A entrevista – intitulada "A tragédia vem embutida em piadas" – fazia parte de uma edição especial sobre os 20 anos da morte de Nelson Rodrigues, por isso o autor de Vestido de Noiva é o foco.

Segue um trecho da improvisada e quase telegráfica entrevista (adoro entrevistas improvisadas) de Camila com Millôr:

Como e quando você conheceu Nelson Rodrigues?
Eu era menino (13 anos) quando comecei a trabalhar na revista O Cruzeiro, Nelson teria uns 12 mais do que eu. Vivemos horas, diariamente, dentro e fora da redação. Só muitos anos mais tarde nos separaríamos, mas nunca deixamos de nos ver, ocasionalmente.

Você se lembra do apelido “Filósofo” ou outros que Nelson teria dentro da redação de O Globo?
Não. Nem nunca soube desse. E [olha que] mesmo quando não estava com ele, até o fim de sua vida, sabia dele diariamente por amigos comuns.

Você se lembra de Nelson como alguém de hábitos religiosos?
Não que visse.

Na biografia O Anjo Pornográfico, Ruy Castro escreveu que as três irmãs de Nelson eram apaixonadas por você. É verdade?
Ruy é um excelente ficcionista. Pergunte a ele.

Ruy conta também que, na redação de O Cruzeiro, você e o Hélio Jaguaribe aproveitavam as saídas de Nelson para adicionar algumas linhas a seus textos. Ele não percebia essas malandragens (...)?
Claro que percebia. E não se importava. Quem escrevia como Suzana Flag [pseudônimo de Nelso Robrigues] não pensava estar escrevendo um texto irretocável. Nossa vida era uma brincadeira permanente. A tragédia inúmeras vezes vem embutida em piadas. 

Roma está no MASP


Relevo com gladiadores - fim de I a.C.

Você ainda tem 26 dias, até 22 de abril, para ver a espetacular exposição Roma - A Vida e os Imperadores, que está no Museu de Arte de São Paulo (MASP) desde janeiro e é a abertura da programação do MASP para o "Momento Itália Brasil 2011-2012". Poucas vezes se viu ou verá uma reunião de peças tão valiosas a mostrar a arte, a cultura e a história romanas, da qual a civilização ocidental é irrevogavelmente debitária.

Estátua do deus Júpiter
Segundo os organizadores da mostra,”o desafio é recontar a trajetória do povo e dos imperadores romanos no período tardio da República e primeiros séculos do Império Romano por meio da arte, da arquitetura triunfal, das cerimônias de poder, da vida cotidiana, das célebres conquistas e da opulência do Império”.

O acervo sai da Itália pela primeira vez e você tem a oportunidade de ver reunidas peças do Museu Arqueológico Nacional de Florença, do Museu Nacional Romano, do Museu Nacional de Nápoles, do Antiquário de Pompeia, do Museu Arqueológico de Fiesole e da Galeria Uffizi.

A exposição é formada por quatro núcleos:

1. Entre César e Augusto: o nascimento do Império. A dinastia, a vida e o legado de Júlio César (séculos I a.C. a III d.C).

2. Nero. O luxo e a opulência que marcaram o legado do imperador Nero, que se tornou soberano aos 17 anos.

3. O apogeu do Império. Destacando os jogos do Circo e do Coliseu, em que a força e o poder se manifestam nas lutas de gladiadores.

Estátua da deusa Ísis
4. Um Império multicultural. Mostra as origens dos costumes romanos. O sincretismo formador da cultura de Roma, do qual uma magnífica estátua da deusa egípcia Ísis em mármore preto e mármore branco é um emblema fabuloso.

É emocionante estar diante da riqueza representada pela exposição. Se você gosta de cultura, arte e história, e mesmo assim perder a oportunidade de ver a mostra Roma - A Vida e os Imperadores no MASP, tenha certeza de que estará cometendo um pecado do qual talvez jamais se perdoe.

Para mais informações, acesse este link do Museu de Arte de São Paulo.

Serviço
MASP
Avenida Paulista, 1578 - São Paulo - SP
Telefone (55 - 11) 3251-5644
Próximo à estação do metrô Trianon-MASP

Net fecha com Fox Sports, mas parte dos assinantes terá de pagar R$ 9,90 a mais

Finalmente a Net assinou um acordo com a Fox Sports e agora os assinantes (mas nem todos) da operadora poderão assistir à Copa Libertadores. O canal disponibilizado é o 97 da NET digital, já a partir desta quarta-feira. O acerto se deu duas semanas depois de a Sky fechar com a emissora que agora detém os direitos de transmissão exclusivos da mais importante competição do continente.

Neste momento, por exemplo, o canal 97 da Net está transmitindo Olímpia do Paraguai e Flamengo.

Porém, a Net informou que boa parte dos assinantes está apenas “degustando” a novidade, que será fechada. Isso porque os clientes que têm os pacotes NET Mais TV, Diversão, Atualidade e Estilo precisarão pagar o pacote Esportes à parte, a um custo de R$ 9,90 mensais, para assistir o canal 97.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dia do Circo!


Hoje, 27 de março, é um dia em que se comemora a alegria e a arte.

Ninguém sabe ao certo como e onde começou a arte circense, mas pinturas indicam que os chineses já faziam malabares, acrobacias e coreografias circenses há 5 mil anos. Porém, o circo "moderno" surgiu na Roma antiga, com o Circo Máximo (Circus Maximus, em latim), localizado no vale entre a colina Palatina e a colina Aventina.

Clique para ampliar
Marcio "Mágico" Keller e Caela Terra - da Arte e Circo

Fica então aqui registrada a homenagem a essas criaturas dedicadas a levar alegria e encantamento às pessoas e às crianças, como a trupe da Arte e Circo, de Florianópolis, que faz animação de festas e eventos na capital catarinense, onde é bastante conhecida. A rioclarense Caela Terra e o gaúcho Márcio "Mágico" Keller, casal que comanda a galera, justificadamente ilustram este post.

domingo, 25 de março de 2012

Corinthians vira e derrota Palmeiras. Santos vence fácil o Bragantino


No Pacaembu, um derby de dois tempos. No primeiro, com o golaço (mais um) de Marcos Assunção, o Palmeiras foi superior e mereceu amplamente o 1 a 0. E, por falar em merecimento, o Corinthians deveria ter saído para o intervalo com no mínimo um jogador a menos. O zagueiro Chicão deu uma entrada no tornozelo do avante Barcos digna de Código Penal. Um absurdo, tomou só amarelo. E, se o árbitro Marcelo Rogério fosse rigoroso, poderia ter expulsado Liedson pela dividida com o goleiro Deola. O velho Chaves diria que foi bem “sem querer querendo”. Nesse lance, o senhor juiz fica com o benefício da dúvida, pois trata-se do chamado lance interpretativo. Mas aquela perna esticada não engana quem jogou um pouquinho de futebol que seja.



No segundo tempo o Verdão “entrou com sono”, como definiu Valdívia depois do jogo, e, antes que o time acordasse, o Corinthians já havia virado, com a contribuição camarada do volante Marcio Araújo, que entregou o primeiro gol aos 4 e, logo depois, não satisfeito, se encarregou ele mesmo de mandar para as redes. Aos 6 minutos, já estava para 2 a 1 para o Alvinegro. Imediatamente associei aquele momento da partida a uma luta de boxe: um típico caso de nocaute técnico. E não deu outra. O placar era o definitivo.

Ressalva à arbitragem feita, o resultado acabou sendo justo, pois o Palmeiras pouco produziu para merecer reverter o quadro. Valdívia ainda teve a chance de empatar ao driblar Julio César, mas, como ele não é craque, adiantou a bola e perdeu o gol. Diante da como sempre bem postada e ótima zaga corintiana, nem Maikon Leite nem Ricardo Bueno fizeram qualquer coisa que parecesse obra de atacante e mostraram que o argentino Barcos precisa de um companheiro de ataque, senão à altura, no mínimo capaz de vestir a camisa titular palmeirense.

Mais uma tragédia: Outra vez a insanidade e a estupidez prevalecem. O palmeirense André Alves, de 21 anos, morreu após uma briga na manhã do domingo, ao que parece baleado. Em agosto do ano passado, briga entre as mesmas torcidas terminou com a morte do corintiano Doulgas Karin Silva, encontrado boiando no rio Tietê.


Peixe ganha e Neymar diz: “Zagueiro bate e diz ‘Deus te abençoe’ ”




Para ganhar do Bragantino por 2 a 0 na Vila e se manter no 4° lugar, fugindo ao desgaste de pegar um grande já nas quartas, Muricy escalou quase todos os titulares, poupando apenas Fucile, Dracena e Borges, substituídos respectivamente por Maranhão, Bruno Rodrigo e Alan Kardec. Mais interessante do que a fácil vitória peixeira foi um episódio na saída do intervalo da partida: o repórter perguntou a Neymar sobre a marcação, e a resposta foi ótima: “ele [o zagueiro Junior Lopes] bate e depois diz ‘Deus te abençoe”, afirmou o camisa 11, com sorriso sarcástico. Ótimo isso.

Numa época em que a cada cinco palavras esses jogadores brasileiros falam duas ou três vezes “Jesus” ou "Senhor”, é uma forma de dizer que falar em Deus não significa ter caráter. Neymar não é estrela apenas por ser craque, mas também porque tem carisma e não é otário.

No segundo tempo, o treinador santista colocou Ibson na vaga de Henrique (poupado) e Borges na de Alan Kardec (que não vinha bem). Em má fase, Borges desencantou e fez um gol, embora esse até eu fizesse. Com 2 a 0 aos 10 do segundo tempo e um jogador a mais a partir dos 27, Muricy poderia ter dado oportunidade ao jovem Dimba no lugar de Neymar, poupando o principal jogador santista, que não para de jogar e apanhar enquanto a partida não acaba.

Antes, ao invés de Íbson entrar para sair Henrique no intervalo, a opção poderia ter sido Elano na vaga de Ganso, com Elano como meia, mais à frente do que tem jogado no esquema do treinador, assim poupando também o camisa 10, que vem de maratona de jogos. São opções que estão a sua disposição, mas, como se sabe, o que uma baleia tem de gordura Muricy Ramalho tem de cautela.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Uma bela criança


Na célebre foto, Capote e Marilyn dançam
“A Beautiful Child”, no original em inglês, é o título de uma maravilhosa narrativa de Truman Capote publicada no livro Música para Camaleões (1980). Nela, o autor de A Sangue Frio conta um episódio que viveu com a atriz Marilyn Monroe a partir de um encontro que tiveram nos funerais de Constance Collier, “uma das maiores atrizes shakespearianas da Inglaterra”, diz Capote, e que nas últimas décadas de vida fora professora de teatro de pessoas que já fossem profissionais. Marilyn, que lhe fora apresentada por Capote, era uma dessas alunas.

Na cerimônia fúnebre, na qual estabelecem um diálogo delicioso, mordaz, bem-humorado (o bom humor é da narrativa, não necessariamente do diálogo), eles discutem, por exemplo, quando Capote diz que vai esperá-la fora da capela. “Preciso fumar um cigarro”, diz ele. O papo segue:

Marilyn: “Não pode me deixar sozinha! Meu Deus! Fume aqui”.
Capote: “Aqui? Na capela?”
Marilyn: “Por que não? O que você vai fumar? Maconha?”

Você pode praticamente ver a cena de um baixinho assumidamente gay discutindo num funeral com uma deslumbrante loira escondida sob um figurino “apropriado a uma abadessa de um convento em audiência privada com o papa”, segundo descreve o autor. Não querendo ser reconhecida pelos fotógrafos, eles esperam o evento e a capela esvaziarem. “Seja paciente. Assim que pudermos sair, iremos a algum lugar e eu comprarei uma garrafa de champanhe para nós”, diz a atriz. Enquanto isso, continuam a conversa e depois de se certificar que não será fotografada, eles saem a peregrinar pelas ruas de Nova York.

Segue-se uma adorável pequena odisséia de ambos ao redor de vitrines de lojas de antiguidades até acabarem em um restaurante na Segunda Avenida. Ali, entre muitos drinks (fora os famosos comprimidos que a atriz, como se sabe, usava), trocam desafios sobre amores e amantes, e discorrem sobre as estrelas de Hollywood. Fazem fofocas mil, essa coisa que todo mundo nega mas adora, a partir de um jogo de adivinhação em que Capote tenta descobrir quem seria o amante de Marilyn. E as fofocas seguem. Tyrone Power tinha um caso com Errol Flyn, fica-se sabendo.

Constance Collier

Mas, embora pareça ser alimentado por meras futilidades, o texto é um registro poderoso e inigualável, eu diria espiritual, da figura de Marilyn Monroe, não como a estrela maravilhosamente bela e glamurosa que provocou tantas fantasias, mas principalmente como portadora da alma de “uma bela criança”, como diz o título, segundo a sensível visão de Capote, termo, aliás, usado pela própria Constance Collier, no enterro de quem o episódio inicia e de quem é a melhor definição da mitológica loira (que não era loira real e nem uma atriz na acepção do termo): “O que ela tem – essa presença, essa luminosidade, essa inteligência lampejante – jamais poderia vir à tona no palco (...) É como um beija-flor em pleno vôo”.
Marilyn Monroe, que foi amante do presidente John Kennedy, morreria em 5 de agosto de 1962 com 36 anos, em circunstâncias misteriosas até hoje não esclarecidas.

Ao contrário de outros ensaios em que aborda celebridades, neste o autor nos aproxima do objeto de sua narrativa e admiração, compartilhando conosco sua intimidade com a estrela por meio de sua técnica narrativa de riquíssimos recursos que se conhece como literatura de não-ficção. Ao contar seu encontro com Marlon Brando em “O Duque em seu domínio”, por exemplo (texto que está em Ensaios, da editora LeYa), há um enorme distanciamento, uma frieza mesmo, nenhum elo de ligação pessoal ou afetiva, entre o narrador (Capote) e o objeto narrado (Brando).

“Uma bela criança” está em dois livros facilmente encontráveis nas livrarias: Ensaios (editora LeYa), uma coletânea reunindo textos de vários livros, e Música para Camaleões (Cia. das Letras), reunião feita pelo próprio Capote publicada sob esse mesmo título nos Estados Unidos em 1980. Apesar desta última edição ser a tradução de uma obra fechada pelo autor, prefira a da LeYa.

Leia também, sobre Truman Capote:

Impressões sobre Ensaios

Nota sobre A Sangue Frio