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"Em casa": Reprodução do livro Meu Último Suspiro (Ed. Nova Fronteira) |
Pelo mergulho profundo na psicologia, na filosofia, na
teologia, com sua abordagem que estilhaça o senso comum, com sua ironia
devastadora e seu cinema que causou perplexidade e escândalo, o
espanhol Luis Buñuel (1900-1983) é um cineasta impossível de ser definido por
parâmetros convencionais da crítica de cinema. Ele é diretor de filmes como L'Âge
d'Or (1930), Los Olvidados (1950), Viridiana (1961), Simão no Deserto (1965), A
Bela da Tarde (1967), La Voie Lactée (1969), Tristana
(1970), O Discreto Charme da Burguesia (1972), Esse Obscuro Objeto do Desejo
(1977). Todos esses são obras-primas, fora outros. Tenho uma série neste blog, "Favoritos do cinema", em que falo de filmes que me são caros, mas Buñuel fica fora, porque teria de falar de cada um de seus filmes em particular.
Buñuel foi companheiro de surrealismo do maravilhoso poeta Federico
García Lorca (assassinado pelo fascismo franquista espanhol em 1936) e do pintor Salvador Dali. Claro que Buñuel transcende o rótulo de surrealista e é inclassificável, assim como Lorca. Já Dali assumiu o surrealismo como modelo de arte e fonte de lucro.
Mas Buñuel está sempre
presente na minha mente. Como hoje, por exemplo, durante agradabilíssima tertúlia
com amigos queridos, em que falamos de fé e razão, ciência e espírito.
No livro Meu Último Suspiro (publicado
em Paris em 1982 e no Brasil pela Nova Fronteira), Buñuel, que se professava ateu convicto, fala de Deus e do
acaso. Não vou comentar. Reproduzo o que ele diz:
Sobre o acaso:
"O acaso é o grande senhor de todas as coisas.
A necessidade só vem depois (...) Se entre meus filmes tenho uma ternura
particular por O Fantasma da Liberdade, é talvez porque ele aborda esse tema
inabordável. O roteiro ideal, com o qual sonhei muitas vezes, procederia de um
ponto de partida anódino, banal. Por exemplo: um mendigo atravessa a rua. Vê
uma mão que se estende por uma janela aberta de um carro de luxo e joga no chão
a metade de um charuto. O mendigo para bruscamente para pegar o charuto. Outro
carro o atropela e o mata.
"A partir desse acidente pode ser feita uma série
infinita de perguntas. Por que o mendigo e o charuto se encontraram? Que fazia
o mendigo àquela hora na rua? Por que o homem que fumava o charuto o jogou fora
naquele momento? Cada resposta dada a essas perguntas gerará outras perguntas
cada vez mais numerosas. Nós nos encontraremos diante de encruzilhadas cada vez
mais complexas, levando a outras encruzilhadas, a labirintos fantásticos, onde
teremos que escolher nosso caminho. Assim, seguindo causas aparentes que na
realidade são apenas uma série, uma profusão ilimitada de acasos, poderíamos
remontar cada vez mais longe no tempo, vertiginosamente, sem uma interrupção,
através da história, através de todas as civilizações, até os protozoários
originais.
"Claro está que é possível tomar o roteiro pelo outro
sentido, e ver que o fato de jogar o charuto pela janela de um carro,
provocando a morte de um mendigo, pode mudar totalmente o curso da história e
conduzir ao fim do mundo."
***
"Ateu graças a Deus"
"Ao aproximar-se meu último suspiro, muitas vezes
imagino uma última brincadeira. Convoco aqueles de meus amigos que são ateus
convictos como eu. Tristes, eles se distribuem em torno de minha cama. Chega
então um padre que mandei chamar. Para grande escândalo de meus amigos, confesso-me,
peço a absolvição para todos os meus pecados, e recebo a extrema-unção. Após o
que, viro-me de lado e morro."