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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Deus e o acaso, segundo Luis Buñuel



"Em casa": Reprodução do livro Meu Último Suspiro (Ed. Nova Fronteira)

Pelo mergulho profundo na psicologia, na filosofia, na teologia, com sua abordagem que estilhaça o senso comum, com sua ironia devastadora e seu cinema que causou perplexidade e escândalo, o espanhol Luis Buñuel (1900-1983) é um cineasta impossível de ser definido por parâmetros convencionais da crítica de cinema. Ele é diretor de filmes como L'Âge d'Or (1930), Los Olvidados (1950), Viridiana (1961), Simão no Deserto (1965), A Bela da Tarde (1967), La Voie Lactée (1969), Tristana (1970), O Discreto Charme da Burguesia (1972), Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977). Todos esses são obras-primas, fora outros. Tenho uma série neste blog, "Favoritos do cinema", em que falo de filmes que me são caros, mas Buñuel fica fora, porque teria de falar de cada um de seus filmes em particular.

Buñuel foi companheiro de surrealismo do maravilhoso poeta Federico García Lorca (assassinado pelo fascismo franquista espanhol em 1936) e do pintor Salvador Dali. Claro que Buñuel transcende o rótulo de surrealista e é inclassificável, assim como Lorca. Já Dali assumiu o surrealismo como modelo de arte e fonte de lucro.

Mas Buñuel está sempre presente na minha mente. Como hoje, por exemplo, durante agradabilíssima tertúlia com amigos queridos, em que falamos de fé e razão, ciência e espírito.

No livro Meu Último Suspiro (publicado em Paris em 1982 e no Brasil pela Nova Fronteira), Buñuel, que se professava ateu convicto, fala de Deus e do acaso. Não vou comentar. Reproduzo o que ele diz:


Sobre o acaso:

"O acaso é o grande senhor de todas as coisas. A necessidade só vem depois (...) Se entre meus filmes tenho uma ternura particular por O Fantasma da Liberdade, é talvez porque ele aborda esse tema inabordável. O roteiro ideal, com o qual sonhei muitas vezes, procederia de um ponto de partida anódino, banal. Por exemplo: um mendigo atravessa a rua. Vê uma mão que se estende por uma janela aberta de um carro de luxo e joga no chão a metade de um charuto. O mendigo para bruscamente para pegar o charuto. Outro carro o atropela e o mata.

"A partir desse acidente pode ser feita uma série infinita de perguntas. Por que o mendigo e o charuto se encontraram? Que fazia o mendigo àquela hora na rua? Por que o homem que fumava o charuto o jogou fora naquele momento? Cada resposta dada a essas perguntas gerará outras perguntas cada vez mais numerosas. Nós nos encontraremos diante de encruzilhadas cada vez mais complexas, levando a outras encruzilhadas, a labirintos fantásticos, onde teremos que escolher nosso caminho. Assim, seguindo causas aparentes que na realidade são apenas uma série, uma profusão ilimitada de acasos, poderíamos remontar cada vez mais longe no tempo, vertiginosamente, sem uma interrupção, através da história, através de todas as civilizações, até os protozoários originais.

"Claro está que é possível tomar o roteiro pelo outro sentido, e ver que o fato de jogar o charuto pela janela de um carro, provocando a morte de um mendigo, pode mudar totalmente o curso da história e conduzir ao fim do mundo."

***

"Ateu graças a Deus"

"Ao aproximar-se meu último suspiro, muitas vezes imagino uma última brincadeira. Convoco aqueles de meus amigos que são ateus convictos como eu. Tristes, eles se distribuem em torno de minha cama. Chega então um padre que mandei chamar. Para grande escândalo de meus amigos, confesso-me, peço a absolvição para todos os meus pecados, e recebo a extrema-unção. Após o que, viro-me de lado e morro."

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pensamento para sexta-feira [41] – García Lorca



Panorama cego de Nova York


Se não são os pássaros
cobertos de cinza,
se não são os gemidos que golpeiam as janelas da boda,
serão as delicadas criaturas do ar
que manam o sangue novo pela escuridão inextinguível.
Mas não, não são os pássaros,
porque os pássaros estão prestes a ser bois;
podem ser rochas brancas com a ajuda da lua
e são sempre rapazes feridos
antes que os juízes revelem a teia.

    Todos compreendem a dor que se relaciona com a morte,
mas a verdadeira dor não está presente no espírito.
Não está no ar nem em nossa vida,
nem nestes terraços cheios de fumaça.
A verdadeira dor que mantém despertas as coisas
é uma pequena queimadura infinita
nos olhos inocentes dos outros sistemas.

    Um traje abandonado pesa tanto nos ombros
que muitas vezes o céu os agrupa em ásperas manadas.
E as que morrem de parto sabem na última hora
que todo rumor será pedra e toda pegada latido.
Nós ignoramos que o pensamento tem arrabaldes
onde o filósofo é devorado pelos chineses e larvas.
E alguns meninos idiotas encontraram pelas cozinhas
pequenas andorinhas com muletas
que sabiam pronunciar a palavra amor.

    Não, não são os pássaros.
Não é um pássaro o que expressa a turva febre da laguna,
nem a ânsia de assassínio que nos oprime a cada momento,
nem o metálico rumor de suicídio que nos anima a cada madrugada.
É uma cápsula de ar onde nos dói o mundo todo,
é um pequeno espaço vivo ao louco uníssono da luz,
é uma escada indefinível onde as nuvens e rosas olvidam
à gritaria chinesa que ferve no desembarcadouro do sangue.

Eu muitas vezes me perdi
para buscar a queimadura que mantém despertas as coisas
e só encontrei marinheiros atirados sobre as varandilhas
e pequenas criaturas do céu enterradas sob a neve.
Mas a verdadeira dor estava em outras praças
onde os peixes cristalizados agonizavam dentro dos troncos;
praças do céu estranho para as antigas estátuas ilesas
e para a terna intimidade dos vulcões.

    Não há dor na voz. Só existem os dentes,
mas dentes que calarão isolados pelo raso negro.
Não há dor na voz. Aqui só existe a Terra.
A terra com suas portas de sempre
que levam ao rubor dos frutos.


Extraído de Federico García Lorca - Obra Poética Completa
(Editora Universidade de Brasília /Martins Fontes - 1989)
Tradução: William Agel de Melo