quarta-feira, 16 de maio de 2012

Acidente com metrô em São Paulo deixa 33 feridos. Cadê o governador?

Fotos: Reprodução/ TV Globo

Da Agência Brasil às 12:01 desta quarta: “Aproximadamente 45 homens do Corpo de Bombeiros trabalham no resgate às vítimas do acidente ocorrido na manhã de hoje (16) entre dois trens da Linha Vermelha (Barra Funda/Corinthians Itaquera), na zona leste da capital paulista. Segundo os bombeiros, há 33 feridos. Dois deles, em estado grave”.

O acidente aconteceu entre as estações Carrão e Penha, na Linha 3 - Vermelha. As causas ainda estão sendo apuradas.

“Os feridos estão sendo levados para o Hospital Municipal do Tatuapé, Hospital das Clínicas e para a Santa Casa de São Paulo”, diz ainda a agência.

Apesar de toda a grande mídia na internet dizer que não há feridos graves, o iG afirma que “duas vítimas apresentaram ferimentos moderados, uma grávida e um homem com possível traumatismo craniano”. Ué, eu pergunto, traumatismo craniano não é grave?

Para o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, o acidente não foi por acaso. "Consideramos que a falta de profissionalismo e o avanço da terceirização e do amadorismo têm contribuído para uma série de problemas. Hoje foi mais um", disse Ciro Moraes dos Santos, segundo a Folha online.

Será muito difícil, caro leitor, ouvir os substantivos PSDB, tucanos, Geraldo Alckmin e José Serra, vinculados a episódios como esse, na grande imprensa. Apesar de o metrô ser administrado pelo governo do estado de São Paulo, ao ler a “grande imprensa” (online ou não) parece que o responsável pelo metrô é uma entidade alienígena desconhecida de um planeta distante.

Na própria matéria da Folha online acima citada o depoimento do dirigente do sindicato, com certeza editado, não menciona a palavra governo, nem nada parecido.

Superlotação: população tenta se virar
Mas o caos continua e as conseqüências da falta de investimento provocam situações cada vez mais graves.

Em agosto do ano passado, o presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Altino de Melo Prazeres Junior, afirmou: “O Metrô vem de um atraso de décadas que, somado a mais gente no sistema e à expansão lenta, cria superlotação. O que aumenta mesmo são os problemas”.

Na ocasião, ele disse ainda que, em decorrência do corte de investimentos, levará mais de 30 anos para se chegar à meta de 200 quilômetros, e que, entre 2008 e 2010, o Estado de São Paulo utilizou 37% a menos da verba disponível para o metrô (R$ 5,95 bilhões de R$ 9,58 bilhões previstos). Leia mais sobre a matéria aqui .

Segundo o Jornal Hoje, da Globo, só este ano o metrô de São Paulo teve 90 problemas técnicos e elétricos.

PS: E a Soninha Francine? Será que vai dizer que o acidente de hoje foi uma sabotagem?

Leia também: O caos nos transportes e o cinismo do governador de São Paulo


Atualizado às 13:30

terça-feira, 15 de maio de 2012

Com Hollande, uma França que fala de solidariedade e crescimento

Se a França na prática vai ser ou não um novo parâmetro político na conjuntura da Europa, onde paira a nuvem negra e sinistra da recessão, pelo menos simbolicamente já é algo alentador que o novo presidente, que tomou posse hoje, dê outra direção ao discurso em voga no país de René Descartes com Nicolas Sarkozy, cujo governo só tem um mérito: sua digníssima esposa Carla Bruni...

Como o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade,
Arco do Triunfo é um dos símbolos da França
François Hollande, eleito no dia 6 de maio com 51,6% dos votos, é o primeiro socialista a assumir a presidência francesa depois de 17 anos da direita no poder. Hollande chega ao Palais de l'Elysèe com um discurso que se vale de palavras esquecidas do vocabulário francês: união, solidariedade e crescimento. Ele também aponta para uma política que reverta a discriminação aos imigrantes. Já inaugura o governo reunindo-se com a reacionária chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Na pauta do encontro, a crise europeia. Vale lembrar que Angela Merkel, que apoiou Nicolas Sarkozy na eleição presidencial, sequer conversou com o então candidato Hollande. Vai ter que conversar agora...

Na cerimônia de posse de François Hollande, a massa de cidadãos empunhava faixas, entre as quais algumas pediam medidas contra a crise e um governo igualitário. O que não é pedir muito, considerando que estamos falando do país que, com a Revolução Francesa em 1789, mudou a história do Ocidente universalizando os princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Quem sabe a França de Jean-Jacques Rousseau, Gustave Flaubert, Victor Hugo, Théophile Gautier, Stendhal, Baudelaire, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e tantos outros grandes reencontre o caminho perdido em busca de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, embora esta afirmação soe também um tanto quanto... romântica, de minha parte.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mais uma vez com arte e magia, agora quem dá bola é o Santos, tricampeão paulista


A bem da verdade, o título paulista já tinha dono antes de começar a final Santos x Guarani nesta tarde, no Morumbi, onde mais uma vez o time da Vila deu a volta olímpica após bater o Bugre por 4 a 2, com dois gols de Neymar e dois de Alan Kardec (na partida de ida, 3 a 0 no mesmo estádio).

Como já disse várias vezes aqui, o Morumbi é um estádio onde o Alvinegro está acostumado a triunfar. Neymar não cansa de brilhar – e nem minhas retinas, tão fatigadas, de vê-lo brilhar com a camisa preto&branca, e, por vezes, azul. Além dos dois gols na tarde deste domingo, ele participou decisivamente dos outros dois, como se pode ver nos lances abaixo.



Desta vez, o título é especialmente significativo. Pois é um título duplo: o de campeão de 2012 e o de tricampeão paulista, façanha poucas vezes conseguida na história. No ano do centenário. A última vez em que um clube conquistara três vezes seguidas o Campeonato Paulista havia sido o mesmo Santos, mas o de Pelé, em 1967/68/69, que também foi tri de 1960 a 62. Os outros times que levantaram o tricampeonato foram o Palestra Itália (1932 a 34) e três vezes o Corinthians (1922-24, 1928-30 e 1937-39 – quando meu avô era jovem). Depois da Libertadores de 2011, com o tricampeonato paulista de 2012 o Santos de Neymar continua avançando e igualando marcas.

E o “craque da camisa número 11”, como diria Silvio Luiz, foi o artilheiro do Paulistão com 20 gols. Ele anotou ainda sete tentos pela Libertadores, até agora. Em 24 partidas este ano (16 pelo o estadual e 8 no torneio continental), o craque mandou a bola às redes 27 vezes, média impressionante de 1,125 gol por jogo. Neymar chegou na final do Paulistão a 108 gols com a camisa do Santos, sendo aos 20 anos o maior artilheiro da era pós-Pelé e o 16° da história do clube. O 15° é Vasconcelos, que tem 111.

Foto: Bruno Giufrida - Divulgação/ Santos FC
Neymar comemora o tri na Vila

Considerando o século XXI, o Alvinegro Praiano tem um cartel de títulos invejável. Depois da fila de 17 anos sem títulos (importantes*), em 2002 o Peixe inaugurou uma era vencedora. Desde então, foram dois Brasileiros (2002 e 2004), cinco Paulistas (2006/07/10/11/12), uma Copa do Brasil (2010) e uma Libertadores (2011). O tricampeonato paulista conquistado neste domingo é um galardão à parte. É um tricampeonato. Mais uma vez com arte e magia, agora quem dá bola é o Santos.

Ficha Técnica

Santos 4 x 2 Guarani
Morumbi, São Paulo (13 de maio de 2012)

Gols: Alan Kardec, a 1min; Fabinho, aos 4min; Neymar, aos 8min; Bruno Mendes aos 16min do 1º tempo. Neymar, aos 26min e Alan Kardec aos 47min do 2º tempo

Ricardo Saibun / Divulgação Santos FC 
Muricy já está à vontade na Vila Belmiro
Santos
Rafael; Henrique, Edu Dracena, Durval e Juan (Léo); Arouca, Elano (Felipe Anderson) e Ibson; Ganso; Alan Kardec e Neymar. Técnico: Muricy Ramalho

Guarani
Emerson; Bruno Peres, Domingos, André Leone e Bruno Recife; Éwerton Páscoa (Thiaguinho), Fábio Bahia e Danilo Sacramento; Medina (Max Pardalzinho); Bruno Mendes (Ronaldo) e Fabinho. Técnico: Vadão

Árbitro : Paulo César de Oliveira
Público: 53.749
Renda: R$ 2.677.243,00

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Santos 8 x 0 Bolívar


Não vou ficar explanando (esse verbo vem do fundo do baú) sobre Santos 8 x 0 Bolívar. Nem precisa. Descrever o jogo, ou os gols? O que importa é lembrar que no triste espetáculo de La Paz o lamentável Bolívar, além da altura da capital boliviana a favor, usou de meios sujos para vencer o Santos por 2 a 1 (aqui). Furioso com esses métodos, saindo de campo na ocasião, Neymar avisou: “Libertadores não tem só ida. Vai ter a volta”.

E com dois gols marcados na partida de hoje e 106 pelo Santos na história, o Rey se tornou o maior artilheiro do clube após a era Pelé.

*Então, vejam os gols, porque imagens (em alguns casos, não em todos) valem mais do que palavras. Os oito tentos foram marcados por Elano (2), Neymar (2), Ganso (2), Alan Kardec e Borges:


Por Santos TV

Fluminense, com justiça

Com a vitória sofrida, dramática e justa do Fluminense de Abel Braga, por 2 a 1, sobre o Internacional de Dorival Júnior, no Engenhão, o Tricolor carioca pega o Boca Juniors em uma das partidas das quartas.

A vitória da Universidad de Chile por 6 a 0 sobre o Deportivo Quito (que havia vencido por 4 a 1 no jogo de ida) confirma que o time chileno é agressivo e insinuante, e faz pensar que seria interessante uma final La U x Santos. Enfim, as quartas-de-final estão definidas. A Libertadores de 2012 está forte. Só tem jogão. Façam suas apostas.

Quartas-de-final

Jogos de ida


16/05 - 19h45 - Libertad x Universidad do Chile
16/05 - 21h50 - Vasco x Corinthians
17/05 - 19h45 - Boca Juniors x Fluminense
17/05 - 22h - Vélez Sarsfield x Santos

Jogos de volta
23/05 - 19h30 - Fluminense x Boca Juniors
23/05 - 22 - Corinthians x Vasco
24/05 - 20h - Santos x Vélez Sarsfield
24/05 - 22h30 - Universidad do Chile x Libertad


*Atualizado às 14:06 (11/05/2012)

Quartas-de-final da Libertadores se definem
nesta quinta-feira


Como esperado, foi fácil a vitória do Corinthians sobre o Emelec do Equador: 3 a 0, no Pacaembu, na partida de volta pelas oitavas-de-final da Libertadores. Se há alguma coisa a dizer sobre o jogo que levou o Timão às quartas é: como é impressionante o nervosismo corintiano ante o desafio de ganhar de qualquer time sul-americano nessa competição.




O primeiro tempo do jogo terminou com o Emelec dominando um Corinthians nervoso, apesar de ter feito 1 a 0 logo aos 7 min do primeiro tempo com Fábio Santos. Contra um medíocre Emelec, os nervos podem não ser decisivos, mas, diante de um Vasco, um Santos ou um Vélez, o Corinthians não tem chance se jogar como atuou contra o Emelec. Posso errar, mas o pragmatismo de Tite não passa das semifinais, se passar das quartas, quando para mim o Vasco é favorito.

O adversário do time de Tite nas quartas vai ser o Vasco da Gama de Cristóvão Borges, que, fora de casa, bateu o argentino Lanús nos pênaltis, após dois resultados iguais (2 a 1 para os cariocas no Rio e igual placar para os hermanos em Lanús). Costumo torcer contra os times brasileiros na Libertadores. Para mim, a rivalidade fala mais alto do que aquele papo furado global de Corinthians (ou Vasco, ou Santos, ou Palmeiras, ou São Paulo, ou Flamengo etc) “é o Brasil na Libertadores”.

Mas hoje seria uma judiação o bravo Cristóvão Borges e o goleiro Fernando Prass caírem. O arqueiro bateu roupa no segundo gol do Lanús, mas, como sempre defendo os (bons, nunca os maus) goleiros, acho que seria injusto o Vasco cair por uma falha, sim, mas de um jogador que tem sido um guerreiro na esquadra cruz-maltina, seu goleiro Fernando Prass.

Desse lado da chave, o Vélez Sarsfield eliminou facilmente o Nacional de Medellín e pegará nas quartas-de-final o Santos, que deve passar pelo Bolívar nesta quinta-feira (toc toc toc).

Do outro lado da chave, o chileno Unión Española não deu nem para começar diante do Boca Juniors, com atuação soberba do veterano Riquelme. O Boca começa a gostar da competição nos mata-matas, isso é sabido, um clichê. Mas há de se considerar que o adversário do time argentino nas oitavas era fraco e o Boca só confirmou um favoritismo cabal. Seu oponente nas quartas será bem melhor, o vencedor de Fluminense x Internacional. Acho que dá Flu.

Os jogos das quartas-de-final da Libertadores, ainda com pendências, serão os seguintes:

Corinthians x Vasco
Vélez x Santos ou Bolívar

Libertad x Deportivo Quito ou Universidad de Chile
Boca Juniors x Inter ou Fluminense

Nesta quinta-feira a tabela estará definida.

Veja a tabela completa das quartas-de-final neste post

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Elio Gaspari usa metrô ou transporte público?


O colunista Elio Gaspari publicou hoje na Folha de S. Paulo (para assinantes) um arrazoado sobre a reclamação, por parte de alunos e professores da USP, da dificuldade para achar vagas para seus veículos no campus, já que, com a nova estação de metrô Butantã, “a patuleia passou a usar as vias públicas da universidade para estacionar seus carros”.

Como é normal na mídia (qualquer pretexto serve para tentar desmoralizar a USP) Gaspari critica a reclamação e os privilégios da comunidade uspiana: “Poucas vezes a demofobia do andar de cima nacional exibiu-se com tamanha clareza. A choldra paga impostos, a USP fica com 5,04% da arrecadação do ICMS e neste ano receberá R$ 3,9 bilhões da Viúva”, discorre Gaspari. “É absurdo querer impedir que os demais contribuintes usem esse espaço público.”

A abordagem do articulista, baseada em meias-verdades, merece reparos, pois tanto alunos e professores da USP quanto as pessoas em geral são vítimas do descaso para com o transporte público em São Paulo.

A situação do metrô paulistano
1) Gaspari não usa nem uma linha em sua análise sobre democracia nos espaços públicos para constatar o óbvio: o incrível atraso do sistema do metrô paulistano em relação a qualquer grande cidade e a absoluta precariedade do transporte em São Paulo. Graças a isso, qualquer estação nova fica imediatamente superlotada por multidões.

Na segunda década do século XXI, a maior universidade (pública) do país não tem uma estação sequer dentro de seu campus. Se as pessoas estacionam seus carros nas ruas da USP provocando sentimentos “demofóbicos” na comunidade uspiana, talvez não o fizessem se o sistema de transporte fosse decente.

Quem mora em áreas do Butantã próximas à USP, como o Jardim Bonfiglioli, viu o número de veículos das linhas de ônibus diminuírem a olhos vistos. O cobrador de uma dessas linhas disse a uma pessoa que conheço que “a empresa tirou alguns carros” depois da inauguração do metrô. Um absurdo. Vi outro dia uma cidadã protestar que chega a ficar meia hora no ponto de ônibus que a levaria ao metrô em dez ou quinze minutos.

Pergunto: o que Elio Gaspari sugere? Que as pessoas usem a velha sola de sapato por quatro, cinco km para se transportar até o metrô? Quem conhece a estação Butantã perto da USP sabe que estacionar no local sem invadir o espaço do campus, principalmente de manhã, é quase impossível, pois os gênios do governo estadual e da prefeitura responsáveis pelo projeto urbanístico do entorno não reservaram espaços para estacionamentos públicos. Eu mesmo já fiquei rodando por ali por muito tempo sem encontrar onde parar o carro num dia em que até estacionamentos privados estavam lotados. No geral, a obra do metrô Butantã, enquanto parte de um contexto maior na realidade urbana, é um lixo.

2) Pergunto ainda: a política, que vigora desde sempre, de privilegiar o transporte individual em detrimento do público, não é também uma execrável forma de "demofobia" (termo usado por Gaspari para atacar alunos e professores da USP)?

Não custa lembrar que o metrô paulistano está muito aquém da demanda. E que o transporte público na cidade governada por Gilberto Kassab é uma vergonha e só faz piorar. Desde 1995, o tucanato governa o estado (responsável pelo metrô) e a ampliação do sistema é lento como os passos de um cágado. A incensada revista inglesa The Economist, no fim de março, publicou o seguinte: "Os 71 Km da rede de metrô de São Paulo são minúsculos para uma cidade de 19 milhões de habitantes. Isso dificilmente seria digno de nota em outras cidades internacionais", afirmou a publicação, e ainda: "O metrô da Cidade do México tem mais de 200 Km de extensão. O de Seul, quase 400 Km. Até mesmo Santiago, com um quarto do tamanho de São Paulo, tem uma rede de metrô 40% maior", diz a revista.

The Economist: até em Santiago metrô é maior que em SP
3) A carência de transporte na cidade é tamanha que a esperada Linha 4 Amarela do metrô, inaugurada há poucos meses, já está entupida, principalmente na ligação com o ramal da avenida Paulista. O projeto dessa interligação é um exemplo de incompetência. As pessoas são conduzidas como gado por corredores, esteiras e escadas rolantes superlotados como se estivessem num estádio de futebol em dia de clássico.

Recentemente, a escada rolante travou e de repente várias pessoas caíram por cima de uma grávida. A culpa disso tudo é de quem, da população que precisa de metrô? Não, é dos governos tucanos que levaram quase duas décadas para ampliar o sistema a uma média ridícula de 1,6 km por ano desde que o PSDB assumiu o controle do estado, em 1995, segundo CartaCapital.

Leia também:

O caos nos transportes e o cinismo do governador de São Paulo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O humor e a ironia em Noel Rosa

Mayra Pinto lança nesta terça-feira, 8, na Livraria da Vila, em São Paulo (a partir das 18h30), Noel Rosa – O Humor na Canção  (pela Ateliê Editorial), resultado de suas pesquisas para a tese de doutorado pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

No livro, a autora explora a obra do compositor carioca criado na Vila Isabel, cuja “voz fala sobre o universo social da pobreza, pouco retratado até então na canção popular urbana, muito menos sob um viés crítico”, explica ela na introdução.

Voz que possuía uma característica muito particular que atravessou toda a sua trajetória musical e poética: “Embora haja canções líricas de sua autoria, a absoluta maioria das composições está atravessada pelas categorias do humor e da ironia, as quais, quase sempre, compõem uma enunciação da experiência como fracasso social em diferentes frentes: econômicas, culturais, afetivas etc. (...) Essa experiência de fracasso na obra de Noel Rosa dramatiza-se em inúmeras personagens, mas a mais frequente é o sambista-pobre”, continua.

Como sou amigo de Mayra, posso dizer que a escolha do tema tem muito a ver com ela mesma, que é uma pessoa acostumada a dar risada dos dramas da vida. E não há nada mais dramático do que o paradoxo que envolveu a vida de Noel: debochando e rindo das agruras da existência, ele, que tinha tuberculose, morreu em 4 de maio de 1937, aos 26 anos.

Abaixo, entrevista com Mayra Pinto, feita por telefone.

Fatos Etc. – O que te motivou ou inspirou a escrever sobre Noel Rosa, o humor e a ironia?

Mayra Pinto – A história é bem absurda, porque quem deu o estalo para pensar Noel Rosa e o humor foi o Bakhtin, que é um teórico russo. Eu tinha lido um livro dele, um clássico, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Ele desenvolve toda uma teoria do humor e faz uma análise muito brilhante da obra de Rabelais e mostra as intersecções na produção erudita do Rabelais com a cultura popular da Idade Média. E, a partir disso, fiquei pensando se por acaso na cultura brasileira não existiria um Rabelais nosso, ou algo semelhante, dado que a nossa cultura, em vários momentos, tem muito essa intersecção entre a cultura popular e a erudita, e comecei a pesquisar e vi que isso vem do século XIX. E no Noel eu acabei encontrando isso, justamente porque ele trabalha as categorias do humor, e aí você tem sátira, deboche, ironia... E ao mesmo tempo é um discurso muito sofisticado, poeticamente, discursivamente. Isso não existia antes dele na música popular.

Todo grande artista deixa heranças e ecos nas gerações posteriores. É possível ver ecos da obra de Noel na MPB contemporânea, sem contar Chico Buarque, já que em Chico essa herança é óbvia?

Compositor morreu aos 26 anos
(risos)  Mas eu vejo ecos de Noel não numa obra especificamente, ecos que estão no Chico, no Caetano, em todo mundo de uma certa forma, porque Noel estabeleceu o que eu chamo de uma matriz discursiva na produção da canção. O que é essa matriz discursiva? É justamente a competência ao fazer esse imbricamento entre a linguagem musical e a linguagem poética. E a competência está ali de tal forma que você não vê nenhum esforço, nada forçado, é a coisa mais natural do mundo. O Luiz Tatit falou que quando a gente escuta Noel é como se o samba sempre tivesse existido, de tão familiar que aquilo soa. O mais original e próprio de Noel Rosa é essa competência de trabalhar bem o discurso poético com o discurso musical. Eu acho que ele deixou isso para todos os grandes letristas da música popular brasileira. Por exemplo, letristas como Paulo Sérgio Pinheiro, Paulinho da Viola. Esses caras não vão tanto pela linha do humor, da ironia, mas são herdeiros na medida em que aprenderam e começaram a partir do nível de um Noel Rosa. Na MPB paulistana você tinha o Rumo, o Premeditando o Breque... E mesmo Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, todo esse momento da década de 80, que teve uma produção estética interessante, explosiva e bem experimental, vamos dizer assim, todo esse povo foi atravessado pelo humor e suas categorias, são obras bem irônicas. O Rumo tem um disco bacana chamado Rumo aos Antigos, em que eles gravaram canções não só do Noel, mas do Sinhô, do Lamartine Babo, com uma leitura moderna, genial, dessas canções antigas dos anos 20 e 30.

A obra de Noel Rosa é um pouco posterior ao modernismo paulista, também carregado de humor e ironia. Na sua opinião, Noel manifesta alguma influência do modernismo ou o compositor é uma matriz independente?

Não dá pra perceber, é muito difícil comprovar isso. Noel era um cara razoavelmente bem informado e culto, chegou até o primeiro ano da faculdade de medicina etc., mas não sei até que ponto ele lia poesia moderna. Tem um samba em que ele tira sarro dos futuristas, dos poetas futuristas, nessa coisa dos futuristas fazerem um discurso non sense. Agora, conversa com o movimento modernista ou leitura dos modernistas eu acho que não houve nada, ou muito pouco. No meu livro tem uma passagem, que eu cito, em que ele fala sobre a poesia parnasiana, como se a poesia do tempo dele ainda fosse a poesia parnasiana. É um discurso bonito em que ele fala que finalmente a arte chegou no povo e o povo influenciou a arte por intermédio do samba. E que os poetas do samba saíram do ranço do academicismo, como ele chama, e se deixaram influenciar pela arte do povo. Nesse discurso dá pra entender que ele está falando dos parnasianos, que na época faziam sucesso.

Em termos de pesquisa acadêmica, foi fácil ou difícil encontrar trabalhos sobre MPB?

Está ótimo fazer pesquisa sobre MPB hoje no Brasil. Sobretudo do ponto de vista da historiografia. Foi uma surpresa para mim, que não sou dessa área... Eu sou de letras. Mas a historiografia está bem adiantada. O que me ajudou muito foi o acervo digital do Instituto Moreira Salles, onde você tem acesso às coleções, por exemplo, de Tinhorão e Pixinguinha, entre outras. Outro exemplo é uma caixa organizada por um professor de biologia, Omar Jubran, com todas as canções do Noel e um baita livreto com todas as letras. Foi uma fonte de pesquisa incrível. Enfim, a gente já está num momento em que pesquisa sobre música popular brasileira pode ser feita com bastante seriedade.

Serviço:
Lançamento
Noel Rosa – o Humor na Canção, de Mayra Pinto (Ateliê Editorial)
Livraria da Vila: rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena (São Paulo)
8 de maio de 2012, a partir das 18h30

domingo, 6 de maio de 2012

Santos faz 3 a 0, é virtualmente tricampeão paulista e Neymar iguala outro feito da era Pelé


Foto: Ricardo Saibun/Santos FC
Camisa 11 chega a 104 gols, igualando Chulapa e João Paulo

Ao derrotar o Guarani no Morumbi por 3 a 0 sem se esforçar muito neste domingo 6 de maio, com uniforme azul, o Santos é virtualmente tricampeão paulista, título que ninguém ganha em São Paulo desde 1969, quando o próprio Alvinegro Praiano o conquistou. Depois de levantar a terceira Libertadores no ano passado, o tri estadual é mais um feito que a geração de Neymar (liderada pelo próprio) iguala aos triunfos da era Pelé.

E mais: com os dois gols marcados contra o Bugre, Neymar é o artilheiro do Paulistão (18 gols) e chega a 104 tentos com a camisa alvinegra, igualando Serginho Chulapa e João Paulo. Falta um para o jovem craque da camisa 11 ser o maior artilheiro da história do Santos pós-Pelé.

Quanto ao jogo de ida das finais do Paulistão propriamente dito, imagino que para os não santistas, e que portanto viram o jogo “de camarote”, foi uma partida até chata. Apesar do equilíbrio inicial, do jogo morno, a impressão era de que o Peixe não ficaria muito tempo no 0 a 0. E Ganso fez o serviço aos 42 da etapa inicial.

Sem falsa modéstia: Ganso
comemora imitando maestro
O Guarani atuou com valentia, marcou bem (e, diga-se, com lealdade, como havia prometido o técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão), fez o que pôde, mas a diferença entre os times é abissal. Até mesmo fisicamente, pois o time campineiro, já desfalcado na partida de seu atacante Fumagalli, lesionado, perdeu também contundido o importante camisa 4 Neto. Na medida em que o tempo passava, ia ficando mais e mais fragilizado. A rigor, a única grande chance de gol da equipe do interior foi um chute do lateral Bruno Recife aos 50 segundos do segundo tempo, que o goleiro Aranha desviou providencialmente e bateu na trave.

Lateral esquerda, o calcanhar de Aquiles do Peixe

De resto, a torcida do Santos deve estar preocupada com a lateral esquerda, setor que com Juan é muito vulnerável no time de Muricy Ramalho: os zagueiros Durval e Dracena têm de se revezar constantemente para cobrir as costas desse fraquíssimo lateral, que não à toa ficou encostado no São Paulo até o Santos ir buscá-lo por total falta de opção. Espera-se que o veterano Léo esteja sendo guardado para duelos mais importantes, pela Libertadores, pois mesmo o frágil Guarani penetrou com facilidade pela esquerda várias vezes. Se Léo não está mesmo 100% fisicamente, o Santos corre risco de sofrer sérios revezes por aquele setor quando enfrentar equipes mais fortes.

Sem o volante Adriano (que tomou hoje o terceiro amarelo) para a finalíssima contra o Bugre, Muricy, por outro lado, poderá escalar Henrique em seu lugar, jogador que critiquei e queimou minha língua, e que volta à sua posição original no próximo domingo, depois de atuar (e muito bem) improvisado na lateral direita, posição esta que Maranhão reassumirá após cumprir suspensão nesta primeira partida.

Libertadores

Mas, antes do jogo protocolar com o Guarani, o Peixe precisa ganhar do Bolívar na quinta-feira, 10, para se classificar às quartas-de-final da Libertadores. Parece barbada. Depois é que serão elas, como dizia minha avó, pois o adversário, depois do Bolívar, deve ser o Vélez Sarfield, que já ganhou do Atlético Nacional (COL) em Medellín, no jogo de ida, por 1 a 0.




Ficha Técnica

Guarani 0 x 3 Santos
Morumbi - 6 de maio de 2012

Guarani: Emerson; Bruno Peres (Thiaguinho), Domingos, Neto (André Leone) e Bruno Recife; Éwerton Páscoa (Willian Favoni), Fábio Bahia, Danilo Sacramento e Medina; Bruno Mendes e Fabinho Souza. Técnico: Vadão
Santos: Aranha; Henrique, Edu Dracena, Durval e Juan; Adriano, Arouca, Elano (Ibson) e Paulo Henrique Ganso; Alan Kardec e Neymar. Técnico: Muricy Ramalho

Cartões amarelos: Ewerton Pascoa e Fábio Bahia (Guarani); Adriano e Henrique (Santos)
Gols: Ganso, aos 42 minutos do primeiro tempo; e Neymar, aos 20 e aos 46 do segundo
Árbitro: Wilson Luiz Seneme

sábado, 5 de maio de 2012

Fatos da semana: STF declara ProUni constitucional
e Dilma dá xeque no mercado financeiro



Pelos muitos afazeres, e portanto falta de tempo, não falei aqui antes sobre os dois fatos da semana. O primeiro é o Programa Universidade para Todos (ProUni), considerado constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ontem, 3 de maio. O segundo fato da semana é a presidente Dilma, que, nesta semana, dedicou-se a demonstrar que, se alguém tinha alguma dúvida, ela é a chefe de Estado.

Fato 1: o STF declarou válido o ProUni por 7 votos a 1 (o voto vencido foi do ministro Marco Aurélio de Mello: uma no cravo, outra na ferradura). O julgamento estava no tribunal desde 2004. A ação contra o ProUni foi ajuizada por três entidades: Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenem), pelo DEM e pela Federação Nacional dos Auditores Fiscais da Previdência Social (Fenafisp).

Estudantes fazem o ProUni - Foto: Wilson Dias/ ABr

O ProUni foi atacado de todas as maneiras pela mídia (querendo desmoralizá-lo). Só essa campanha bastante virulenta, em si mesma, já demonstrou que por algum motivo o ProUni contraria interesses. Quais? Basta se informar e ver aonde leva o fio da meada.

Eu sou paulista da cidade de São Paulo. Aqui, se viu como o tucanato (o ex-governador José Serra e o atual, Alckmin) tratou a educação: com a polícia armada com seus porretes e gás de pimenta. Logo, para resumir a ópera, a declaração de legalidade do ProUni pelo STF é bastante importante.

Do ponto de vista político, é óbvio o dividendo que a decisão da "Corte Suprema" agrega à campanha de Fernando Haddad na cidade de São Paulo. A gestão de Haddad no Ministério da Educação foi ferozmente combatida pela mídia paulista, como no caso do Enem.

Fato 2: A presidente Dilma Rousseff falou grosso esta semana, e, como notaram até jornalistas do sistema Globo (no caso, a Globo News), seu governo deu um recado bastante claro na área econômica, e sob esse aspecto está indo bem mais longe do que o governo do presidente Lula.


Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ ABr
Dilma Rousseff, entre Guido Mantega (dir.) e Michel Temer

Quando o Banco do Brasil anuncia (na manhã desta sexta-feira, 4) uma nova redução nas taxas de juros para pessoa física, entre outras medidas, está dizendo para o mercado, o adorado deus mercado, que ele não pode tudo, e a mensagem é explícita: o governo pode não concordar totalmente com as “leis do mercado”.

O “mercado” chantageia, veladamente ameaça, mas fica numa situação difícil no tabuleiro de xadrez, já que uma instituição poderosa como o BB está dizendo: “os clientes que tiverem conta salário no BB e aderirem ao programa Bom pra Todos não pagarão mais do que 3,94% ao mês em nenhuma modalidade de crédito pessoal”.

A Caixa Econômica Federal já anuncia há semanas cortes de juros significativos. A mídia tenta timidamente, e em vão, se apegar à questão aritmética de uma alegada perda na caderneta de poupança. Perda largamente compensada com a queda de juros oficializada nas medidas adotadas pelos bancos federais.

Vamos ver como o “mercado” sai desse xeque. Se é que sai.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pastor que chamou vizinha do templo de “filha do diabo” pagará indenização


A 5ª Câmara de Direito Civil do TJ confirmou decisão da comarca de Palhoça, que condenou um pastor de igreja pentecostal daquele município ao pagamento de indenização por danos morais a uma vizinha do templo, a quem proferiu ofensas em noite de culto. “A senhora é filha do diabo e tem que se tratar com Deus”, afirmou o pastor em relação à vizinha, que conversava no portão de sua casa com a filha e o namorado desta.

A sentença de 1º grau arbitrou a indenização em R$ 1,5 mil. Em apelação ao TJ, o pastor alegou “legítima defesa da igreja e da própria fé que professa” para justificar os impropérios. Disse que a moça costumeiramente debochava dos frequentadores da igreja e que sua atitude foi, em verdade, de defesa contra tais ataques. Nos autos, entretanto, nenhuma testemunha confirmou esse comportamento da vizinha da igreja.

“Tem-se que o réu (…), por ação voluntária, violou o direito de crença da autora, causando-lhe ofensa, por discriminação e por falta de solidariedade e fraternidade ao seu patrimônio ético. Por isso, tem o dever de indenizar a autora”, definiu o desembargador Monteiro Rocha, relator da matéria. A decisão, que manteve integralmente a sentença, foi unânime (Ap. Cív. n. 2009.043906-4).

Fonte: TJSC
Publicado originalmente no site Consumidor Legal 

Comentário deste blog: além do importante valor de precedente desse julgamento, já que vivemos uma época de preocupante crescimento da intolerância religiosa (entre outras), só quero destacar ainda um trecho do texto do relator do processo, desembargador Monteiro Rocha:

“Ofensa irrogada por Pastor, em afronta aos princípios constitucionais da solidariedade, da igualdade e da fraternidade, contra pessoa que professa outra religião, caracteriza ato ilícito contrário à liberdade de crença religiosa da vítima, sendo presumido o seu constrangimento moral.”

Leia também: Cresce o poder político (e social) dos evangélicos no Brasil

Pensamento para sexta-feira: Imaculada Oração, de Gabriel Megracko




Imaculada Oração


Pio de pássaro
Murmulho de rio
Mio de gato
Rumor de brasil

Trovão do céu
Marulho no ar
Breu coaxar
Cascavel

Sussurro de caatinga
Voz de prata luar
Sombra de cacto no estio

Murmúrio de mandinga
Preto no mato cantar
Risada de moça no cio

(Gabriel Megracko, abril de 2012)


Da série Pensamento para sexta-feira, número 30

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A indústria de vinho brasileira só quer concorrer consigo mesma


Não se sabe ainda como terminará a queda de braço entre a indústria de vinho brasileira (leia-se indústria gaúcha) e os importadores.

A última informação oficial mais consistente, de 15 de março, era de que, a pedido de entidades de classe dos produtores do país, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) havia mandado abrir investigação sobre a necessidade de salvaguardas para proteger o produto nacional. A investigação se justifica, segundo a Secex, dadas as informações “de que o crescimento das importações de vinhos ocorreu em condições que causaram prejuízo grave à indústria doméstica".

Resumindo, caro leitor: os produtores nacionais querem que o imposto de importação aumente (e muito, não é pouco, não) para protegê-los. Houve quem falasse em uma majoração do tributo de 27% para 55%! O que tornaria proibitivo aos que gostam de saborear um bom vinho a preços acessíveis, como os provenientes da Argentina, de Portugal e do Chile, por exemplo.

Os produtores gaúchos argumentam que produzem vinho de qualidade, mas que são sufocados pelas facilidades dos importadores. É um argumento falacioso e até cínico. Qualquer bebedor de vinho sabe que o que eles chamam de “bom vinho” brasileiro custa no mínimo o dobro de um similar argentino, para ficarmos apenas no país dos hermanos.

A reivindicação das vinícolas brasileiras, porém, sofreu um contra-ataque, quando restaurantes resolveram boicotar a aquisição de seus produtos, em protesto contra a possibilidade de se proibir, pelo preço, que uma pessoa comum possa beber um vinho decente, mas que possa pagar.

Os produtores brasileiros, se querem ser competitivos, que produzam então um vinho de qualidade e ganhem a concorrência honestamente. Pois o que querem é ajuda do governo para achacar o consumidor com seu produto de péssima qualidade ou de qualidade razoável a preços exorbitantes.

Esse argumento de, oh, tantas famílias de colonos italianos construíram a duras penas seu patrimônio etc etc, é muito tocante, mas o consumidor não tem nada a ver com isso, um enredo de novela. A verdade é que os capitalistas brasileiros só gostam do capitalismo à sua maneira. Globalização? Ótimo, muito bom, desde que não interfira em seus lucros. Concorrência? Claro, é a maior invenção da humanidade, mas só querem concorrer de maneira justa consigo mesmos. Alegam "concorrência desleal"... Mas são leais com quem mais interessa, o consumidor brasileiro? Não.

Espero sinceramente que o governo não venha apoiar esse retrocesso. Mas temo que sim. Em fevereiro, disse e presidente Dilma em Caxias do Sul: “Vivemos aqui um momento de respeito ao povo de Caxias e a todos os imigrantes que fizeram uma parte extraordinária do nosso país. Homens e mulheres corajosos que vieram fazer a vida neste novo mundo”, afirmou ela. Mas duvido que Dilma preferisse um Almaden a um Quara, para ficarmos em exemplos simples.

Se o governo apoiar, vai ser um desgaste político para preservar um setor que não pode se manter a custa de incapacidade de oferecer ao consumidor um produto bom que, repito, ele possa pagar.

Enfim, vou parando por aqui, que uma taça de vinho de Mendoza me aguarda.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Holanda faz campanha contra consumo de maconha por turistas

Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Um dos países mais liberais no consumo de drogas no mundo, a Holanda resolveu mudar a política em relação ao tema. As autoridades holandesas anunciaram uma ofensiva contra o turismo para consumo de drogas no país. A partir de agora, os coffee shops, cafés que tem autorização para vender maconha e haxixe em pequenas quantidades, serão acessíveis somente para quem mora na Holanda.

A medida, por enquanto, atinge apenas as províncias do Sul da Holanda, nas fronteiras com a Bélgica e a Alemanha. Mas a ideia é estender a decisão a todo país até o fim do ano que vem. Várias placas foram instaladas nas fronteiras com a mensagem "Novas regras, sem drogas".

Segundo a legislação holandesa, os 670 coffee shops holandeses devem se transformar, aos poucos, em clubes de acesso limitado com, no máximo, 2 mil membros cada. Os clientes serão identificados por um documento, já apelidado de "carteirinha da maconha", fornecido somente aos maiores de 18 anos que residem na Holanda.

A medida tem como objetivo diminuir o incômodo causado pelo chamado turismo da droga, formado por viajantes que visitam a Holanda para consumir entorpecentes. A atividade é criticada por causa dos engarrafamentos, do barulho durante a noite e do aumento de vendedores ilegais que perambulam pelas ruas do país.

Os donos de coffee shops são contrários à medida, pois temem a queda nos lucros proporcionados pela venda de drogas a turistas. Alguns comerciantes da cidade de Maastricht, próxima das fronteiras com Bélgica e Alemanha, disseram que vão enfrentar a decisão do governo. Eles contavam com uma clientela de cerca de 1,4 milhão de turistas por ano.

*Com informações da emissora pública de rádio, RFI

O Espírito do Santos (parte 3 - Os Meninos da Vila)


CENTENÁRIO

No momento em que parcela da torcida santista protesta pela marcação das finais do Campeonato Paulista de 2012, contra o Guarani, para o estádio do Morumbi, e não na Vila Belmiro, me parece oportuno publicar a parte 3 da série O Espírito do Santos, em homenagem ao centenário do clube (os links dos outros posts estão abaixo deste texto). É que esta tem muito a ver com o estádio Cícero Pompeu de Toledo.

Com 29 gols, Juary foi o artilheiro do Paulistão de 1978/79

(Apenas um parênteses: dois exemplos recentes e significativos de público pífio do Peixe na Vila Belmiro: 1) Santos 1 x 0 Corinthians em 4/3/2012 - Público: 12.818. 2) Santos 0 x 0 Corinthians 10/08/2011 - Público: 9.714 pagantes. Desse ponto de vista, está mais do que justificada a marcação das finais no estádio do São Paulo. E, como divulgou sua assessoria de imprensa, o clube já conquistou cinco títulos paulistas no Cícero Pompeu de Toledo, um campeonato Brasileiro (2002) e ainda o primeiro título da história do Morumbi, ainda em 1969, após um 0 a 0 com o São Paulo – título que foi, aliás, o último tricampeonato paulista da história, feito que pode se repetir em 2012.)

Muito bonita, aliás, a homenagem feita pelo craque Neymar no último domingo, quando, ao marcar um dos gols na vitória de 3 a 1 sobre o São Paulo que levou o Peixe à final do campeonato, comemorou ao estilo Juary, em torno da bandeirinha de escanteio. Como diria Milan Kundera, Neymar tem a inspiração da imortalidade, pois não ignora nem a história nem o futuro.

Em 1978 eu tinha 17 anos e, na época do time dos Meninos da Vila, o Peixe disputava muitos clássicos no “maior estádio particular do mundo”, como se dizia na época. Eu não perdia um. E foi dando show atrás de show que o Alvinegro sagrou-se pela primeira vez campeão após a era Pelé. Como na última década, o time da Vila fez então do São Paulo freguês dentro de seu próprio campo em jogos decisivos.

Chico Formiga
Mas, voltando à parte 3 da série, o time de 1978 talvez tenha sido, dos quatro times que encarnam o Espírito do Santos (anos 50/60, 1978, 2002 e 2010/2011), aquele que eu mais vi jogar no campo. Não perdia chance de ver o infernal time de Clodoaldo, Pita, Ailton Lira, Nilton Batata, Juary e João Paulo, uma máquina de contra-ataques letais – muitas vezes acompanhado do meu irmão palmeirense Paulo. Por falar de irmão palmeirense, a asa negra histórica chamada Palmeiras se manifestou naquela temporada: como o time de Robinho e Diego, a esquadra de Nilton Batata, Juary e João Paulo não derrotou o Alviverde: foram três jogos na competição e três vitórias palmeirenses: 2 a 0 e duas vezes 2 a 1 (na era Pelé, o Peixe teria conquistado doze campeonatos paulistas seguidos se o Palmeiras não houvesse levantado a taça em 1959, 1963 e 1966).

Mas aquele grande time de 1978, infelizmente, entre os de que trato nesta série, foi o mais efêmero e desmontou-se rápido após o título paulista de 1978/79, num campeonato interminável com turno, returno, terceiro turno, mata-matas para decidir cada turno (a competição começou em 20 de agosto de 1978 e terminou em 28 de junho de 1979!). Em 1980, Ailton Lira foi para o São Paulo, enquanto Juary e Nilton Batata se transferiram para times mexicanos.

Seja como for, comandado por Chico Formiga, o Alvinegro daquela geração surpreendeu os rivais. Na época, o Campeonato Paulista era muito mais valorizado do que hoje.

Como viria a acontecer em 2002, ou 24 anos depois, o clube em 1978 estava sem recursos, sem ganhar um campeonato importante havia algum tempo (cinco anos depois do título dividido com a Portuguesa, o último da era Pelé) e teve de recorrer aos jovens de sua base.

Nilton Batata, Juary e João Paulo formando a linha de frente apoiada por um meio de campo magnífico com Clodoaldo e o craque Ailton Lira, o time contou ainda com o raro talento de um jovem meia canhoto vindo da base e que ficou na história: o camisa 10 Pita.

Como disse, vi muitos jogos desse time no Morumbi. E foi na casa do São Paulo que o Peixe vencia o Tricolor e dele fazia seu maior freguês na temporada. Foram sete clássicos San-São naquele Paulistão, com três vitórias do Alvinegro, duas do São Paulo (sendo que uma de nada valeu, pois o Santos foi campeão mesmo perdendo a partida) e dois empates.

Eu estava no campo quando o Alvinegro conquistou o Paulistão, de maneira não muito empolgante, pois justo na decisão o time do Jardim Leonor venceu por 2 a 0, resultado que ainda não lhe dava o título. Pelo regulamento (o Peixe tinha melhor campanha), precisava vencer também a prorrogação. Mas esta acabou 0 a 0. Era 28 de junho de 1978. Eu via pela primeira vez meu time ser campeão in loco, num estádio. Curiosamente, como meu filho Gabriel, que viu o time da Vila sair da fila em 2002, eu tinha então 18 anos.

Naquela quinta-feira, 28 de junho de 1979, desfalcado de Ailton Lira e João Paulo, além do zagueiro Joãozinho, o Santos de Chico Formiga atuou com Flávio; Nelsinho, Antonio Carlos, Neto (Fernando) e Gilberto Sorriso; Toninho Vieira, Zé Carlos e Pita (Rubens Feijão); Nilton Batata, Juary e Claudinho.

Leia também:

O Espírito do Santos (parte 1 - a geração de Neymar)

O Espírito do Santos (parte 2 - a geração de Diego e Robinho)