Há tempos quero escrever uma série de posts sobre o que
é ser de esquerda. Os temas perpassados por essa ideia são muitos: racismo,
literatura, políticas públicas, linguagem etc. Começo por um tema aparentemente
banal: as medidas que vêm sendo adotadas pelo prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad, e que incorporam muito do que se chama de politicamente correto, mas nem tanto de uma visão
verdadeiramente de esquerda.
Mesmo com a queda do Muro de
Berlim, ser de esquerda não diz respeito a um conceito abstrato que deixou de
ter razão no mundo contemporâneo, como querem alguns (ignorantes ou
direitistas). Muito resumidamente, quem se situa no espectro da esquerda
necessariamente se identifica com a defesa de princípios universais tais como
humanismo, solidariedade, tolerância, harmonia entre as raças e gêneros, direitos
humanos, igualdade, assim como com a prevalência dos direitos coletivos sobre
os individuais, dos direitos dos trabalhadores sobre os do capital, da paz
sobre a guerra, a prevalência do Estado laico, entre outros princípios.
Aqui entre nós brasileiros, devido aos curtos períodos de
democracia espremidos entre ditaduras, e, em consequência disso, do
desconhecimento histórico, as pessoas se arvoram em determinar o que é ser de
esquerda com um simplismo assustador. Ser de esquerda muitas vezes se resume à
identificação com pequenas políticas, sejam quais forem, desde que venham dos heróis
eleitos (literal ou simbolicamente) para representar as pequenas políticas,
hoje muitas vezes traduzidas pelo que se conhece como o politicamente correto.
Com esta série de posts pretendo falar de atitudes ou políticas elencadas
numa espécie de cartilha tacitamente aceita para ser seguida pelos "esquerdistas" de hoje.
Começo então a série com temas que dizem respeito ao
cotidiano dos paulistanos. Aqui, o fato de a capital de São Paulo ter uma
tradição conservadora e ter sido governada por direitistas como Paulo Maluf ou
Gilberto Kassab, ironicamente ministro das Cidades de Dilma Rousseff, obscurece a mente das
pessoas que se dizem de esquerda ou acham que são de esquerda.
Disso, decorre que as pessoas, principalmente as mais
jovens, rezam uma cartilha segundo a qual há verdades absolutas. Se o prefeito
adota uma medida, não importa se bem ou mal executada, inteligente ou burra, técnica
ou politicamente justificável, você tem de ser a favor, desde que a medida
esteja de acordo com a cartilha. Se você não for a favor, você não é de
esquerda.
Por exemplo, não importa se você sempre se posicionou (não
só em palavras, mas sobretudo em atos) na defesa dos princípios universais
citados acima. Se você tem críticas à implantação das ciclovias na
capital de São Paulo tal como foi (muito mal) feita, ou se não está de acordo
com a decretação de velocidade máxima de 50 km por hora na via local da
Marginal, pronto. Você é um reacionário. Você não é de esquerda.
Eu concordo com a redução de velocidade em São Paulo. Mas não da maneira como foi feita, autoritária e sem critério. O limite é de 50 km/h tanto numa avenidazinha de pista única e estreita, como uma aqui perto de casa, como numa via expressa ou grandes avenidas de duas pistas e quatro faixas. Não faz o menor sentido. A redução de maneira linear e sem critério como foi feita só dá "brecha" a gente de direita, que aproveita para capitalizar o erro. Dá a impressão de que, como tudo o que Jilmar Tatto faz, é implementado sem estudos e por decreto.
É mais do que óbvio que o transporte público deve prevalecer
sobre o individual; é mais do que urgente que a cidade deve incorporar o uso da
bicicleta (ou a bike, como se prefere dizer hoje em dia) como um direito. É
claro também que a cidade de São Paulo precisa se humanizar, o que pressupõe o
uso racional dos automóveis e limites aos abusos e à irracionalidade.
Mas as medidas que mexem no cotidiano de milhões de pessoas
têm de ser discutidas. De repente aparece uma animosidade política entre
pessoas que usam bicicleta e as que usam carro muito como consequência de uma
visão autoritária do atual prefeito (e eu posso garantir que o prefeito é
considerado autoritário inclusive por deputados do PT paulista). Um pouco como
o que aconteceu com os fumantes, que viraram inimigos públicos número 1 quando
a lei do (lembremos) José Serra passou a vigorar em São Paulo. Fumar um cigarro
ou dirigir seu carro parecem ter virado atos moralmente condenáveis como se
fossem os fumantes e motoristas os responsáveis pelos males do mundo.
Se não me engano foi Roland Barthes quem escreveu o seguinte
(citação de memória): as revoluções não acabaram com a opressão do homem pelo
homem porque a opressão está na linguagem, não no poder político. Não concordo
integralmente com tal redução, acho que as coisas são mais dialéticas, mas o
que disse Barthes é uma variável que tem de ser considerada.
Nesse contexto, é negativamente muito significativa a seguinte afirmação do secretário municipal dos Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, em entrevista publicada na
Rede Brasil Atual: "Sobre os que defendem o carro, não acho que é má-fé ou ideológico, acho que é burrice, mesmo. É um problema de inteligência". É obtusa, para dizer o mínimo, tal declaração de um secretário de governo que se diz de esquerda.
Se é fundamental numa sociedade justa e mais evoluída que o
transporte público deve prevalecer sobre o individual e que haja espaço para o
ciclista, são condições para isso que o transporte público seja decente e que
haja diálogo entre o poder público e os cidadãos.
Mas não há diálogo, muito menos transporte público decente. O metrô de São Paulo (gerido
pelo governo do Estado, nas mãos do PSDB há 20 anos) tem um terço da extensão necessária.
A Cidade do México, que começou a construir seu metrô mais ou menos na mesma
época que São Paulo, tem hoje cerca de 200 km de linhas, enquanto São Paulo tem
74 km. E o serviço de ônibus na nossa cidade só melhorou na gestão Fernando Haddad
na velocidade, com os corredores e faixas exclusivas. Mas o serviço em si continua
péssimo. Os carros que a prefeitura chama de ônibus são quase literalmente
carroças com uma capa de metal chamada carroceria.
Dia desses peguei um ônibus que rangia e fazia tanto barulho
que fiquei curioso para saber qual era o ano de fabricação do carro. Perguntei
ao motorista. Resposta: 2015. É esse tipo de serviço que temos em São Paulo,
com Kassab ou com Haddad no fim do terceiro ano de sua gestão.
Outra constatação: muitos dos que aplaudem cegamente as medidas de Haddad referentes ao trânsito não dirigem ou não têm carro, o que pressupõe desconhecimento ou um certo ressentimento, talvez.
O prefeito de uma cidade como São Paulo tem de procurar proporcionar
ciclovias planejadas e implantadas com fundamentos técnicos, não no improviso e
na imposição, como tem sido feito; tem de procurar desenvolver um sistema de
transportes moderno, eficiente e confortável; tem de procurar proporcionar,
sim, aos motoristas, vias (ruas e avenidas) bem sinalizadas, modernas, e pensar
numa política de trânsito do século XXI, com um sistema de semáforos
inteligente, ao invés de impor por decreto que a partir de hoje você é obrigado
a andar a 50 km nas marginais.
Enfim, o prefeito tem de procurar governar para tentar
construir uma cidade realmente inclusiva, cujas diferentes formas de linguagem convivam
de maneira harmônica. Se isso é uma utopia, é em busca da utopia que um governo
de esquerda deve caminhar. E não por imposições, como faz a gestão Haddad, cujo secretário chama os cidadãos de burros.
O prefeito tem de ser o mediador dessas linguagens, sobretudo
quando falamos de uma megalópole como São Paulo. Quero crer que inconscientemente, o
prefeito alimenta divisões com suas disputas e bandeiras do politicamente
correto contra o politicamente incorreto, que é tudo o que um governo dito de
esquerda não deve fazer na atual conjuntura de animosidade política no país, e
principalmente em São Paulo.
Citei Roland Barthes acima porque me parece oportuno falar
em linguagem, que tem a ver com cultura, que tem a ver com poder. Não é porque
o cara adora bicicleta que é do bem e porque o cara gosta, prefere ou precisa
de carro que é do mal. É comum atitudes de ciclistas francamente contrárias ao
bom senso, à educação e a qualquer princípio de esquerda ou cidadania. Muitos deles desrespeitam
leis de trânsito e pessoas e adotam posturas agressivas incompatíveis com o que
quer que se entenda por esquerda.
César Ogata/SECOM
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Haddad e seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto, que prefere xingar cidadão de "burro" do que dialogar |
Vamos falar francamente: 1) Sob alguns aspectos, Haddad está agradando gente mais próxima do pensamento de uma Soninha Francine do que de pessoas que
votaram nele, muitas das quais estão irritadas com seu afã de querer radicalizar; 2) essa
restrição exagerada à velocidade obedece muito fielmente à necessidade de a
prefeitura arrecadar com as multas, a chamada “sanha arrecadatória” do estado.
Algumas medidas que Fernando Haddad adota no seu afã de
radicalizar e “falar” a linguagem dos jovens o levam a esquecer que São Paulo é
uma megalópole multicultural.
Nesta megalópole há também muitos milhares de pessoas que
estão aborrecidas com o prefeito porque aqui há quem, como eu, é de esquerda, respeita os direitos dos outros,
anda a 10 km por hora quando tem um ciclista perto de seu carro, que nunca
atropelou sequer um cãozinho, mas é um cidadão, também gosta de dirigir, gosta de vias
decentes e de uma política de trânsito competente. Que pecado há nisso?
Curiosamente, hoje a imprensa (a chamada mídia conservadora) publica balanço segundo o qual caiu em 27% o número de acidentes com vítimas nas marginais com o novo limite. Esse é o argumento principal. Vamos considerar, com boa vontade, que o balanço da CET seja fidedigno, e não manipulado. Mas tal argumento, levado ao limite, nos levaria a concluir que a melhor solução seria então que todos os carros ficassem parados, o que reduziria os acidentes em ideais 100%. O que me parece fundamental é que houvesse punição real a quem provoca acidentes criminosos. É comum que ricos cheios de dinheiro atropelem e matem (não raro, dirigindo bêbados) e fique tudo por isso mesmo. Se esses criminosos fossem punidos exemplarmente, se a lei previsse enquadramento inafiançável e outras sanções severas, não haveria necessidade de se recorrer ao mais simples.
O ex-presidente Lula, de cujo governo Haddad foi um ótimo
ministro da Educação, como sempre foi preciso ao fazer o comentário em tom de
brincadeira, no dia 1°, no lançamento do Memorial da Democracia no ABC paulista:
"O Haddad tinha se comprometido a vir, mas não compareceu. Vai ver que ele
tá vindo a 50 por hora, não chegou ainda aqui em São Bernardo. Ou tá vindo de
bicicleta."
Humor (tão em falta hoje em dia), ironia e mordacidade. E
não digam que Lula não é de esquerda. Ou pelo menos de centro-esquerda, como se
depreende da leitura de Os sentidos do lulismo, de André Singer. Mas aí já é
outro (longo) assunto.